O problema do romance

Um dos significados de romance no dicionário é: fato real que, por ser muito complicado, parece inacreditável. A vida, de fato, é muito complicada, e por vezes optamos acreditar que é assim só com a gente, porque não é possível que todos passem por tantas dificuldades como a gente.. e aí, estamos fadados ao fracasso. No episódio de hoje, trago a minha visão do porque vejo a romantização excessiva como um dos principais motivos que nos impede de lutar pelo que dizemos querer.

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Quando ouvimos a palavra romance normalmente associamos a coisas e sentimentos bons não é?

Mas e se eu te disser que grande parte da frustração e comodismo que vivemos vem de uma romantização excessiva que temos da vida?

Eu sou a Flavia Machioni, Health Coach, e nessa segunda temporada do Bocadinho estou trazendo reflexões, exercícios e bate papo sobre aspectos que considero importantes para quem busca viver com mais saúde, leveza e alegria.

Eu já escrevi alguns textos sobre o assunto de hoje, mas sempre achei que ficava num tom mais agressivo do que o que gosto de trabalhar.  E até entendo.. acho que não tem como falar sobre a romantização excessiva sem acabar sendo mais dura e objetiva do que a maioria está acostumada. 

A romantização excessiva é achar que um dia tudo vai estar como queremos: o cenário perfeito e o contexto ideal para conseguirmos fazer o que dizemos querer. 

É nesse dia ideal que vamos conseguir manter uma alimentação saudável, ter tempo de ler, fazer exercícios que gostamos, lidar só com pessoas agradáveis, não receber críticas e ter dinheiro suficiente para tudo.

Ficamos esperando o dia que as coisas estarão sob controle, a economia será mais previsivel, o governo deixará de ser corrupto e que nós amadureceremos instantaneamente com o passar dos anos. 

Assim como um conto de fadas da Disney, ficamos sentadinhos esperando e fazendo o mínimo, esperando esse momento ideal. E essa, pra mim, é a receita da frustração.

Porque esse dia NUNCA VAI EXISTIR.

Eu sinceramente acho que muitos dos projetos e planos que deixamos pelo caminho é devido a romantização excessiva que fizemos da vida.

Acabamos nos tornando adultos mimados que acreditam que a vida deveria ser melhor e que um dia magicamente vai ser.

Não bastasse isso, infelizmente muitos de nós está preso num padrão de fazer o mínimo necessário e esperar o máximo. Estudar o que precisa, ler o que mandam, fazer o que pediram, comer o que tem vontade, se exercitar só quando quer e espera ter sucesso profissional, bastante dinheiro e um corpo legal.

Para piorar, ficamos olhando pro lado e quando vemos alguém que personifica aquilo que gostaríamos de ser ou ter, caímos na cilada de justificar a vitória deles e nosso atraso com aqueles argumentos de “foi sorte”, “é porque veio de família rica”, “com certeza é porque é bonito” ou qualquer outra coisa do tipo.

Muitas, muitas, muitas vezes falamos ou pensamos que queremos o que os outros tem.. seja a barriga tanquinho da musa fit do Instagram, a fama do cantor sertanejo ou a fortuna do mega empresário.

Mas, você já parou para analisar os bastidores dos ricos, famosos e sarados que estão por aí na mídia? Será que você tem disciplina suficiente para fazer ¼ do que eles fazem?

Será que está dispostos abrir mão do que eles abrem? De se posicionar em momentos dificeis? De aceitar criticas constantes? De se sentir sozinho ao continuar acreditando no que só você consegue enxergar?

Você que diz que quer ter a barriga chapada, você quer abrir mão dos drinks nas festas de família e casamento dos amigos? Quer acordar antes do sol nascer todos os dias e fazer horas e horas de exercício? Quer restringir a alimentação todos os dias da semana, o ano inteiro e comer o que deve e não o que quer?

Você que diz querer ser um empresário de sucesso, está disposto a lidar com sua família e amigos reclamando porque você não tem mais tanto tempo pra eles? Quer dormir vários dias tentando resolver problemas que só você pode? Quer ter responsabilidade com inúmeras pessoas que dependem da sua dedicação? 

Olhando para os bastidores colocamos em perspectiva e começamos a aceitar que não é que pra eles é mais fácil ou foi sorte, é só que eles se dedicam muito mais do que a gente.

E a questão também não é que você é especial e as coisas são especialmente mais difíceis, demoradas e confusas para você. 

É assim com todo mundo! O dia especial em que tudo vai estar certo para você poder chegar no cenário perfeito e dar o seu grande show não vai existir se você não fizer tudo com antecedência e armar todo o circo você mesmo.

É assim pro Barak Obama, pra Beyonce, pro Elon Musk… na verdade, basta ler qualquer biografia de alguém de sucesso ou influente para ver que a maior parte dos dias dessas pessoas passa longe de ser ideal e que muito do que eles conquistaram foi por dedicação contínua e exaustiva para alcançar um objetivo claro.

E é por isso que eu acho que a romantização excessiva que estamos presos e acostumados é o fator número um para não seguirmos em frente com nossos objetivos e projetos.

A gente sofre de graça porque cai nessa cilada de achar que pra gente é mais difícil do que pros outros.

A gente perde muito tempo querendo achar explicação no que não tem e tentando planejar e controlar coisas incontroláveis, como por exemplo qualquer coisa que não seja você mesmo.

Falta a gente aceitar que nunca vai estar tudo certo. Sempre vai ter um imprevisto, uma falha, um erro.

A vida tem o fluxo dela, independente do que você queira ou goste. O mundo existe assim há muito tempo e quando a gente for embora, ele vai continuar funcionando igual. 

Aceitar isso não é ser pessimista, é justamente o contrário. Aceitar que as coisas nunca vão estar como você quis ou planejou te liberta do papel de vítima… até porque, chega até ser ridiculo pensar que somos as grandes vitimas desse planeta né?

Nos comparamos com pessoas que provavelmente tem valores diferentes dos nossos e acabamos olhando as conquistas delas como se fossem algo fácil e simples. Esquecemos de olhar as nuances da imagem perfeita postada no instagram ou da reportagem de capa do empresário de sucesso.

Estamos insatisfeitos com o que temos mas não estamos dispostos a abrir mão de conforto e segurança. Nem temos disciplina para nos dedicarmos muito mais para colher os frutos só daqui alguns anos.

Em vez disso, olhamos para fora e julgamos quem chegou onde a gente queria estar.

Fazemos deles o assunto da rodinha enquanto não fazemos absolutamente nada demais para conquistar o nosso.

Não é dificil ver o que estou falando. Só entrar em qualquer rede social ou em grupos no Whatsapp para ver um monte de gente alarmista, que passam horas ouvindo e lendo diz que me disse de politico, blogueiro, famoso, e no fim do dia não fizeram absolutamente nada produtivo ou útil de verdade.

Linhas e mais linhas de palavras em caixa alta que fazem barulho e somem no ar, cheias de ideologias vazias e pouco produtivas.

Ficaram horas olhando o que os outros estão fazendo, criticando, dando palpite, colocando etiqueta de certo e errado e não lavaram a louça que tava na pia, não deram bom dia para o porteiro, não passaram água no pote de iogurte antes de jogar no lixo. Às vezes nem a cama arrumaram. 

Mas estão guerrilhando na internet com sua opinião baseada em vários nadas. Cancelam pessoas, se sentem decepcionadíssimos porque um X que nem conhecem pessoalmente falou ou postou algo que não concordam. Reclamam, pedem, brigam, ofendem e dentro de casa quando fazem muito é o mínimo. 

Enquanto 98% está só para ler os comentários e colocar lenha na fogueira, tem 2% que dá a cara a tapa e decide inovar, ousar, ser verdadeiro, tentar ser útil e não desiste quando os imprevistos chegam.

A gente criou uma cadeia alimentar em que a maioria se alimenta de conquistas alheias achando que são suas e se sentem melhor vendo o outro errar e falhar, apontando e fazendo estardalhaço, para criar bastante poeira e esconder sua própria coleção de erros e falhas.

Endeusamos esses que falam o que queremos ouvir e cancelamos quem nos decepcionou ao falar o que não gostamos. Esquecemos que os nosso heróis e vilões são tão cheios de falhas e incoerências como qualquer pessoa. 

Nos mantemos em nosso pedestal de arrogância apontando os bons e os maus, sem força de vontade de levantar a bunda do sofá, buscar ser útil e aguentar o julgamento dos demais.

Quando eu decidi fazer essa temporada voltado ao autodesenvolvimento, eu sabia que não queria nada parecido com alguns conteúdos de autoajuda que passam a mão na cabeça da gente e fazem a gente achar que é só ter pensamento positivo, imaginar coisas boas que tá tudo certo.

Isso não existe.

Ninguém evolui fazendo só o que gosta. Nem ouvindo que tem uma fórmula magica, um mantra bom ou um período X que você deve se dedicar para se tornar uma pessoa melhor.

Ser melhor e se conhecer é um compromisso que você assume com você mesmo para sempre.

Não é o prazer que vai te levar além. Não é o prazer que vai te fazer ser melhor.

É a sua resiliência de fazer o que deve ser feito mesmo se alguém falar que você é um imbecil que não sabe de nada. Continuar fazendo mesmo ouvindo que você não sabe falar direito, que você é irritante e que não gostam mais de você porque você falou algo que ele não gostou de ouvir.

Ser melhor é continuar mesmo quando não tiver ninguém te bajulando. 

Autoconhecimento é um processo doloroso, demorado e solitário. E se você ouviu isso e pensou “comigo não” provavelmente você está fazendo errado.

Porque se conhecer de verdade você vai ver que você é cheio de falhas, que você sente inveja, raiva e ciúmes. Que você é preguiçoso, acomodado e se vitimiza. Vai ver que não tem disciplina, que romantiza tudo e que não faz ⅓ do que deveria para conseguir o que você quer. 

E eu sei que entrar em contato com isso tudo não é fácil, mas lembre: é assim mesmo, e não é só você. 

Romantização excessiva é justamente achar que isso é só com você e acabar se vitimizando por uma situação que é comum a todos, mas em momentos e contextos diferentes. 

E o pulo do gato, o que vai começar a te diferenciar dos demais e tirar você desse estado, é olhar para tudo isso com muita coragem, empatia e carinho e se acolher. Ver todo esse lado e lembrar que está tudo bem, porque é assim como todo mundo é só assim que você vai conseguir melhorar e crescer. 

Faz parte da existência humana ter dificuldades, enfrentar adversidades e imprevistos. Ninguém e nada evolui sem desconforto.

Para o exercício de hoje eu quero que você se lembre de algo que você fez ou conquistou. Pode ser passar em uma prova, acompanhar o filho em algo, evoluir em alguma pratica, aprender algo novo.. pense em algo que você se sentiu útil, feliz e realizado ao fazer.

Depois, você vai escrever detalhadamente qual foi o processo para chegar até ali. Quanto tempo você se dedicou? Teve desafios? Se sim, quais? Como você reagiu às dificuldades? Como você se sentia enquanto estava fazendo? Qual foi a sensação de conquistar? Qual o maior benefício que você teve com isso? Alguma outra pessoa se beneficiou de alguma forma? Se sim, quem e como?

Seja investigativo no processo.. e eu te espero aqui na próxima semana.

Espero você no Instagram @flaviamachioni para saber o que achou desse episódio… já tinha parado para pensar nessa romantização excessiva? Foi novo? Conta pra mim!!

Até semana que vem!