A busca incansável

Já teve a sensação que está fazendo hoje algo que vai ter só amanhã? Parece que o valor vem só depois, ou já passou. Hoje, não tem tanta importância. Assim, ficamos em uma busca incansável. Mas o que estamos buscando mesmo?
A reflexão de hoje é como essa busca afeta nossa vida, nossa imagem e nossa alimentação.

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Vivemos em uma busca incansável. E não importa quanto a gente vá atrás de algo, parece que a gente nunca chega lá. 

A busca na verdade não é incansável, ela cansa…bastante. 

Mas a gente acha que é normal. A gente acha que é assim que deve ser. 

A insatisfação sutil e constante que sentimos e vivemos se torna o padrão dos nossos dias. 

Assim, a gente passa a vida buscando coisas que, mesmo que a gente consiga, a gente não consegue perceber. 

A cabeça sempre no futuro, não conseguimos perceber o que temos hoje. Muito menos que é pelo o que temos hoje que conseguimos se quer pensar no amanhã. 

Mas cadê a valorização do agora?

Do corpo que temos agora? Da idade que temos agora? Das pessoas com quem estamos agora? Dos lugares que visitamos agora? 

Quando não estamos absortos olhando lá na frente, estamos perdidos buscando algo lá atrás.

Apegados ao que costumávamos ser. à como costumávamos agir. Às experiências que tivemos. Às pessoas com quem convivemos.

Impressionante como quando a gente tem o poder de romantizar o que passou e desejar o que não veio.

O presente? Pouco valor tem, porque parece que hoje, agora, não estamos fazendo nada de tão interessante ou bom.

Quão bizarro é quando a gente percebe que o que fizemos naquela época foi épico? Que aqueles dias que a gente estava vivendo moldaram toda nossa vida e nos trouxeram onde estamos?

Porque que só olhando para trás que a gente enxerga o valor que o presente tinha?

A primeira vez que percebi isso em mim foi vendo fotos minhas antigas.

Sabe aquela foto que quando você tira não gosta? Peguei algumas delas anos depois e achei que estava ótima. 

O que mudou? A foto era a mesma.. mas a minha percepção era outra. 

Peguei mais fotos, e o sentimento era o mesmo. Eu olhava e pensava “poxa, era uma fase tão especial. Porque eu não gostei dessa foto na época?”

Vi então, que provavelmente as fotos que estava tirando hoje e enxergando vários defeitos, amanhã eu olharia com outros olhos e conseguiria ver minha real beleza. 

Porque eu conseguia me olhar e admirar só quando olhava para trás? O que eu precisava mudar para olhar no espelho hoje e enxergar como já estou bem e linda? 

Aí a ficha caiu: insatisfação. 

A incansável busca que cansa. Cansa porque a gente acha que nunca chegou. Cansa porque a gente nem sabe o que chegar significa. Cansa porque a gente sai caminhando, buscando, correndo, e nem sabe para onde estamos indo.

Cansa porque você percebe que se não mudar como você se enxerga, você nunca vai estar satisfeita. Você sempre vai querer algo a mais.

E você nunca vai ter esse algo a mais. 

Porque mesmo depois de conseguir o corpo que sonhou, o emprego dos sonhos, a conta bancária recheada e o relacionamento que queria, você vai começar a achar que não era bem isso.

Porque não era bem isso mesmo. Nunca foi, e nunca será.

Quanto mais você ficar olhando para fora tentando buscar aceitação, amor e completude, menos você vai achar.

Quanto mais esforço você colocar para ser, parecer ou estar de um jeito específico, mas você vai ficar cansado. Mais longe vai estar do que realmente importa.

Isso vale para tudo, mas eu confesso que essa reflexão que eu trago é para focar em um dos maiores motivos de insatisfação que vejo: nosso corpo.

Sabe as fotos que eu olhava e não gostava? Eu ficava mal o dia todo. Via defeito em um monte de lugar e por isso não conseguia me olhar no espelho e achar bonito o que eu via. Eu só conseguia enxergar o que eu queria que fosse diferente.

Chegava ao ponto que a foto estragava meu dia, ou a viagem. Sabe o que é pior? Provavelmente você que está me ouvindo está se identificando com isso.. porque o padrão que vivemos é achar que não chegamos lá.

Não estamos adequadas, não importa o quanto a gente tenha tentado se adequar.

Sempre tem algo que não está bom ainda.

Tratamos como uma coisa o nosso corpo. Nosso corpinho querido, que ganhamos ao nascer, que foi formado a partir da junção das células dos nossos pais, em um ato de amor. Que tem nos acompanhado desde o segundo um da nossa vida.. a gente foi ensinado a achar que ele é uma coisa, e que é uma coisa inadequada. 

Precisa ser diferente do que é.

E aí a gente machuca ele, e machuca a gente. Nessa busca incansável por algo que ele nem precisa ser para ser o que ele é.

Assim a gente usa a comida como punição, ou como agrado. Escolhemos a comida como se ela fosse a salvadora ou a carrasca. Vamos criando um relacionamento cruel e doente entre nós, nosso corpo e o alimento. Falta carinho, falta aceitação, falta paciência.

Queremos tudo para ontem, do nosso jeito e logo, por favor.

Assim a gente mexe no nosso corpinho como se ele fosse uma massinha de modelar.

Anestesia e corta um pedaço. Anestesia e coloca algo a mais. Anestesia e muda de posição.

Assim a gente aceita que os outros encostem nele ou falem dele sem carinho. 

Pra que? Sério, para que?

Não sou radicalmente contra dietas, cirurgias ou procedimentos estéticos. Eu mesma já fiz tudo isso. A minha intenção aqui é apenas levantar a reflexão da nossa constante insatisfação com o corpo e como ela vai sutil mas profundamente moldando todos os aspectos da nossa vida: autoimagem, alimentação, relacionamentos, saúde.

Você só está me ouvindo porque seu corpo te permite. Você só está onde está porque seu corpo te permite. Basicamente tudo o que você viveu, sentiu, provou e vivenciou foi graças a esse corpinho que por vezes você olha para o espelho e só enxerga o que você acha que deveria mudar.

Quantas vezes você se olhou no espelho e agradeceu?

Faça isso hoje mesmo. De preferência sem roupa nenhuma.

Eu sei que você é linda, ou lindo. Eu tenho certeza.

Pode ser constrangedor a primeira vez.. vai saber há quantos anos você deixou de olhar para seu corpo com carinho e admiração. Mas tudo bem.. começos são esquisitos mesmo.

Mas esquisito não é sinônimo de ruim. 

Vai lá, tira a roupa, e sorria. Não vai com a cara fechada e nem com vergonha. É você com você mesmo! Sinta-se confortável em estar na sua pele. A sua vida vai mudar quando você começar a fazer isso.