Amando o feio

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Medo, raiva, tristeza, culpa, vergonha.. não dá para escolher que eles nunca façam parte da nossa vida, mas dá para escolher como vamos percebê-los e usarmos a nosso favor.
Amar o feio é libertador, mas antes vai ser irritante. Na reflexão de hoje comento como olhar para minha raiva e meu medo tem me ajudado a amar mais.

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Medo, culpa, raiva, vergonha, inveja, tristeza.

Todos sentimos, mas basicamente nenhum de nós gosta de sentir ou falar sobre. Não é? Mas eu adoro eles e por isso que hoje eu vou abrir meu coração e contar pra você porque eles são legais.

Socialmente não é legal você demonstrar medo, ou culpa, ou raiva, ou vergonha ou inveja. Eu lembro bem quando fiz um dos primeiros posts desabafos lá no Instagram. Eu estava péssima.

Sempre me cobrei muito, sempre quis fazer muitas coisas ao mesmo tempo e tinha uma dificuldade enorme em dizer não o que fazia com que eu aceitasse basicamente todo e qualquer convite e me visse trabalhando em um ritmo insano.

Em meados de 2015 eu estava no meu limite.

Dava vários cursos por semana, em estados diferentes e me cobrava para estar sempre com energia, disposta, alegre. Não bastasse isso, ainda gerenciava minha carreira, cuidava das finanças, respondia as demandas de comentários e dúvidas das plataformas que disponibilizo conteúdo e ainda criava conteúdo novo diariamente para manter em movimento.

Depois de uma aula péssima em que uma das minhas receitas que mais replico deu errado três vezes, eu não aguentei. Fiquei arrasada, e desabafei no Instagram. Lembro de uma pessoa mais próxima mandar uma mensagem pra mim:

“Flavinha, não demonstre suas fraquezas publicamente. As pessoas não vão ver com bons olhos”.

Se tem algo que eu acredito, depois de abrir minha vida pessoal para milhões de pessoas que não me conhecem, é que se mostrar vulnerável te conecta muito mais com os outros do que fingir que você não tem medo, raiva, tristeza, culpa, inveja e vergonha.

Sabe porque? Porque TODO MUNDO sente raiva, medo, tristeza, culpa, inveja e vergonha. São sentimentos básicos e que se você é um ser humano, você sente eles.

Tem um livro que eu adoro, A Coragem de Ser Imperfeito, da Brené Brown. Ela pesquisou durante anos a vulnerabilidade e chegou a conclusão que pessoas que tem coragem de serem quem são, mostrando suas vulnerabilidades e medos, conectam-se mais a si mesmas e aos outros.

Aquele papo que fizeram a gente acreditar de que quando você demonstra suas fraquezas as pessoas vão se aproveitar de você, te passar para trás, te enganar ou falar mal de você, não é verdade.

Não que não existam pessoas que vão fazer isso.. existem sim, mas essas pessoas estão numa batalha tão grande com elas mesmas, estão tão infelizes, inseguras e amedrontadas, que acham que o ataque é a melhor defesa. Essas pessoas, nós vamos deixar de lado um pouquinho nesse episódio. Podemos falar sobre em um próximo, mas hoje nós vamos focar em você, porque você é quem importa.

Como eu disse no início, eu tenho um carinho grande por esses sentimentos. Principalmente pela raiva e pelo medo, amigos que me acompanham desde que eu lembro ter pensamentos.

Nossa relação nem sempre foi boa.. na verdade, por muitos e muitos anos ela foi bem péssima. O medo e a raiva não entendiam que eu não queria eles ali, e mesmo eu ignorando eles, eles ficavam enchendo o saco e davam um jeito de aparecer.

Saco né? Eu toda querendo ser zen e de repente tinha um ataque de raiva e queria mandar todo mundo a merda.

Eu cheia de planos para me jogar no mundo e criar projetos novos e vinha o medo tentando me agarrar e falar para eu não dar mais nenhum passo, porque eu ia me machucar.

E eu ignorando eles.. ouvia, ficava triste, ficava incomodada e tentava seguir.

Mas, como eu disse no último episódio se o incômodo é constante, ele precisa de atenção.

Resolvi, então, olhar para eles. Durante minhas meditações, comecei a perceber exatamente os momentos em que eles surgiam, e aí comecei a ver que tenho um padrão.

Quando comecei a perceber esse padrão, fiquei curiosa em saber qual a origem deles.

E foi aí que comecei a gostar deles: quando resolvi que ia usar todos esses sentimentos para entender melhor o que eu estava sentindo e porque eu acabava sempre sentindo a mesma coisa, em situações diferentes.

Sabe o que é mais impressionante? Quando parei de fingir que eles não estavam ali, fiquei olhando para eles com curiosidade, eles diminuíram de tamanho! Parecia que tinham virado uns bonequinhos de comercial de TV sabe? Tipo quando vão mostrar os micróbios da gengiva em comercial de pasta de dente? Meu medo, raiva, inveja, culpa, pareciam eles.. até meio fofinhos sabe?

A raiva por exemplo, mostrou pra mim quando minhas necessidades não estavam sendo atendidas e assim comecei a perceber o que eu estava precisando. Eu fico com raiva quando alguém finge não me escutar, não demonstra interesse, me ignora.

Com isso, consegui organizar melhor meus pensamentos e assim me afastei de pessoas e situações que claramente não estavam me ajudando. Não preciso ficar perto de pessoas que não querem perceber que estou ali, né?

O medo escancarou minha insegurança. Sabe quando você tem uma ideia, uma vontadinha lá dentro de você, que quando você pensa em fazer vem um sentimento gostoso? E aí logo em seguida você pensa : “ai não, vão rir de mim, falar mal, achar nada a ver. Quem sou eu para fazer ou falar sobre isso?” e magicamente, em poucos minutos você desistiu de algo que queria.

Percebi que era o medo que falava isso e vi que ele ficava menor cada vez que olhava mais pra ele.

E assim foi indo com os outros sentimentos: a inveja me mostrou que eu queria algo que ainda não tinha e me deu ideias e vontade de ir mais além.

A culpa mostrou que eu achava que precisava sempre fazer mais e que na verdade ela estava abraçada com a insatisfação.

A tristeza me mostrou que algo não estava legal, que eu estava procurando coisas nos lugares errados, aceitando situações que eu não queria e fingindo estar tudo bem.

A vergonha mostrou que eu não aceitava bem o que eu queria ou como eu era e por isso achava que se me mostrasse de verdade, as pessoas iriam se afastar, Por vergonha, me escondia.

Quem diria, que esses sentimentos que eu tentei ignorar e expulsar por tanto tempo, no fim estavam ali para me ajudar a ficar mais perto da minha essência, de ser quem eu realmente sou. Quem diria que eles estavam tentando me mostrar o caminho para eu ser amada e me sentir feliz.

Quem diria que ter muita raiva podia ser algo bom?

Quem diria que ficar paralisada de medo poderia fazer eu ir mais rápido?

Quem diria que me entregar para a tristeza e dormir um dia inteiro ia me liberar para sorrir mais no dia seguinte?

Quem diria que olhar para minha culpa por comer um doce ia mostrar que eu precisava cuidar de mim com mais carinho?

Quando a gente muda nossa percepção do que acontece com a gente, a vida muda. Aceitar cada experiência como uma oportunidade para ampliar a consciência, para amar mais, para se cuidar mais, transforma sua relação com você mesmo e com o mundo.

Eu sempre falei muito sobre comida e alimentação, e por isso sempre tive contato com quem está travando batalhas com sua saúde e hábitos alimentares, e o que eu vejo é sofrimento e negação. Sofrimento porque não quer ficar triste, não quer ter raiva, não quer sentir culpa, não quer ter vergonha, não quer ter inveja, mas tem. Porque todos temos.

Negar o que acontece não faz sumir.

Se você não consegue acordar mais cedo para se exercitar, não consegue resistir aos alimentos que você quer evitar, não consegue se alimentar melhor, não consegue dizer não, você tem que cutucar e ver o que que você está segurando que não precisa.

Como Gloria Steinem diz: a verdade vai te libertar, mas primeiro vai te irritar.