Comer é conexão

O ato de comer é uma das formas que mais nos conectamos ao mundo ao nosso redor, seja de maneira social, cultural, emocional, fisiológica, política ou econômica. Um ato simples, mas muito complexo.
No episódio de hoje falo como essas conexões podem nos auxiliar na busca por uma vida mais saudável e proponho um exercício para mudar algumas percepções.

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Conexão. Que coisa maravilhosa! Podemos logo pensar em tecnologia e lembrar como hoje em dia nos conectamos a milhares de pessoas com uma facilidade tão grande que facilmente esquecemos do poder que temos em nossas mãos.

A gente pode acessar informações do mundo todo em segundos. Podemos dar nossa opinião e atingirmos centenas de pessoas. Podemos comprar algo feito artesanalmente na Jamaica pelo Instagram e receber em casa. É um mundo incrível o de hoje.

Conexões tão rápidas e fáceis que esquecemos de perceber a complexidade do processo. Chega para gente de uma maneira tão simples de usar né? É só apertar um botão, digitar umas palavras, perguntar pro Google e tchãnã: conseguimos o que queríamos.

A gente nem se liga que tem centenas de milhares de pessoas envolvidas no processo: programadores, cientistas, executivos, estagiários, secretárias, políticos, engenheiros.

É tanto acontecendo o tempo todo que as sutilezas e delicadezas do processo passam despercebidas.

Com a nossa alimentação também é assim.

A conexão que a comida possibilita é enorme. Por exemplo:

Comer é conexão cultural quando você viaja para algum lugar e conhece parte de sua cultura pela culinária.

É conexão social porque você se conecta com pessoas em festas, almoços e jantares.

É conexão emocional quando se lembra de uma pessoa querida que sempre faz seu prato preferido com tanto carinho.

É conexão política quando você apoia pessoas que exploram o meio ambiente em nome do poder e dinheiro.

É conexão econômica quando você compra de um produtor local, fomentando o desenvolvimento da sua região.

É conexão fisiológica porque tudo o que você come vai se tornar parte de você.

Mesmo com toda a complexidade que o simples ato de comer tem eu arrisco dizer que a maioria de nós não consegue enxergar nenhuma dessas partes do todo tão complexo que é a alimentação.

Primeiro, porque a facilidade do processo nos desconectou dele. Se você não quiser cozinhar nunca, nada, você sobrevive. Sempre vai ter um restaurante, um mercado, a casa de alguém e até um posto de gasolina, que bem sabemos que vendem tudo.

Se você não se envolve no preparo da comida, você já não está tão conectado no processo. A mágica que acontece quando transformamos ingredientes em refeições já não faz parte da sua realidade, e por isso, você não identifica ela.

E acredite ou não, o simples fato de não participar do preparo da sua comida já te deixa alheio a várias conexões que ela naturalmente permite.

Se você compra um tempero pronto em vez de preparar o seu, você não vai ter contato com o frescor da salsinha, o aroma do alho fresco, a ardência da cebola ao ser cortada, a potência do sal. Você não vai saber o que cada um deles pode fazer sozinho e nem como podem ser melhores juntos.

Você terceirizou esse processo, para pessoas dentro de uma fábrica, que você provavelmente nunca vai encontrar pessoalmente e que talvez, até esse momento, não tenha nem passado pela sua cabeça a participação dessa pessoa na sua vida. Tipo quando a gente descobre que o Google tem 85050 funcionários e fica chocado em como não fazemos ideia da complexidade por trás de algo tão simples de usar.

Não é doido? Quantas pessoas estão diretamente ligadas a uma única refeição que fazemos ou a um simples botão que apertamos, dedicando seu tempo e força de trabalho para facilitar a nossa vida, e nem paramos para pensar neles ou agradecer mentalmente.

Usei esses dois exemplos, mas isso vale para basicamente tudo: a água que você bebe, as verduras que compra, os ovos do seu café da manhã, o vinho do jantar.. tudo. Olha o tanto de conexão que só isso já gera!

O todo que cada coisa é.

Quando comecei a trabalhar por conta própria, ou seja, empreender, comecei a me interessar muito mais no que tem por trás das empresas e personalidades que acompanho e admiro.

Quando comecei a cozinhar inevitavelmente comecei a me interessar mais sobre o que está por trás do que como: o plantio, a origem, a qualidade, a forma de preparo do alimento.

Essa curiosidade trouxe uma nova percepção pra mim. Uma percepção mais complexa, com conexões mais amplas e profundas. Porque nada é só uma coisa.

A Anitta não é só uma cantora. O Google não é só um site. Eu não sou só uma criadora de conteúdo. Meu almoço não é só um arroz com feijão.

Quando paramos para questionar, analisar, investigar, a gente descobre o universo que existe dentro de cada coisa. Quanto mais universos a gente descobre, mais a gente vê que no fim, é o mesmo universo.

Eu acredito que comer é a nossa conexão mais profunda com o mundo que nos cerca. É como a gente leva para dentro da gente o ambiente que vivenciamos fora.

A terra que você pisa é a mesma terra em que foi plantada a maçã que você comeu ontem.

O mar que você nada é o mesmo que vive o peixe que você comeu no restaurante japonês.

O ar que você respira é o mesmo do engenheiro do Google que também é o mesmo da alface servida no restaurante.

Não tem separação nenhuma. Mesmo, nenhuma.

E essa conexão, mesmo tão profunda é simplesmente esquecida.

Depois de tanta conexão externa, escolhendo os restaurantes que vamos, os produtos que compramos e os ingredientes que escolhemos, começa uma outra conexão, muito íntima e poderosa.

Porque você sabe que tudo, tudo, tudo, tudo o que você comer vai virar um pedaço de você, né?

Suas células, seus músculos, ossos, sangue, cabelos, unhas, órgãos, todos são formados a partir da comida que você come.

É um relacionamento bem íntimo que temos com o alimento. Bem íntimo. Quer dizer, eu pelo menos considero intimidade algo entrar dentro de mim e depois de um tempo virar parte de mim.

Mesmo assim, limitamos esse relacionamento, essa conexão a desejos, impulsos e vontades.

E não acho que fazemos isso por mal, acho que fazemos isso por falta de conhecimento e de treinamento mesmo.

Porque a gente não é ensinado a entender a linguagem do nosso corpo. Na verdade a gente passa anos da nossa vida achando que temos um corpo, quando na verdade nós somos um corpo. E a diferença entre ter e ser é importante para criar conexão.

Fingimos não entender a conexão direta do que comemos com o que somos e nos tornamos. Ficamos tratando o alimento como fonte de prazer, conforto emocional, preenchimento de noites vazias. Às vezes a gente se priva do alimento como forma de nos punirmos.

Será que esse é o caminho?

Ou será que se nos reconectarmos vamos conseguir ver todas as outras possibilidades que comer nos traz?

Desconsideramos o fator emocional, político, econômico, fisiológico.. parece que o único que não desconsideramos tanto é o social e cultural, que vemos como um lado divertido e interessante do relacionamento.

Tipo como relacionamento a dois.. tem um ou dois lados divertidos e interessantes, os outros 64 são desafiadores, intensos, chatos, burocráticos, complexos, demandantes, irritantes… não é? E é assim para todo mundo, em tudo.

Trabalho também é assim. Família também é assim. A gente também é assim!

Eu posso fazer uma lista super alto astral de todas as coisas legais que eu já fiz ou que me considero. Também posso fazer uma lista giganorme de todas as coisas não legais que já fiz e de tudo o que considero que posso melhorar.

Mas a gente insiste em querer simplificar o que é complexo e complicar o que é simples.

Não seria mais fácil a gente aceitar que nada é só bom ou só ruim? Só difícil ou só fácil? Só legal ou só chato?

Será que aceitar essa dualidade do mundo não deixaria a vida mais leve? As conexões mais profundas? As reflexões mais constantes e a aceitação mais fácil?

Eu acho o ato de comer tão universal e complexo que basicamente qualquer outro aspecto da vida dá para relacionar a ele.

Eu proponho um exercício. A próxima comida que você for comer, tente fazer o caminho inverso. Tente imaginar como ela chegou até você. Por onde passou, quanto tempo levou para ficar pronta. Ela passeou de carro? De charrete? De navio? Alguém colheu? Alguém descascou?

Alguém apertou o botão que fez a máquina trabalhar com ela? Veja até onde você consegue imaginar tudo o que ela passou para chegar até você.

Se possível, sorria e agradeça a todos os envolvidos nessa sua refeição.

Esse é um exercício simples, mas que se feito com certa frequência vai abrir portas para um universo bem amplo. E acho legal a gente começar pela conexão externa.. a conexão interna, tem alguns outros pontos para falarmos antes!

Mas isso fica para uma próxima.

Semana que vem eu volto para mais um bocadinho!

Um beijo!