O poder da pausa

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É na observação, na reflexão que surge a força criativa, ou seja, a força para criar, construir, fazer. A criatividade não é amiga da pressa. Ela é amiga do ócio.
Paradoxal, não? Para criar eu devo então, não fazer?
Mas como parar em uma sociedade em alta velocidade?

A segunda temporada do Bocadinho vem com reflexões e lições centenárias após minha temporada na Itália e na Blue Zone da Sardenha.

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Cala Mariolu — a praia onde esse texto nasceu

Se tem maneira mais clara de falar sobre o poder da pausa do que contando o processo criativo desse texto, desconheço no momento. Eu pensei que conseguiria entregaria episódios semanais do Bocadinho, meu podcast. Não rolou e eu vou te contar porque.

A criatividade não é amiga da pressa. Ela é amiga do ócio. É na observação, na reflexão que surge a força criativa, ou seja, a força para criar, construir, fazer.

Paradoxal, não? Para criar eu devo então, não fazer?

Passei os últimos dois meses viajando. Comecei a escrever esse texto em uma praia isolada na Sardegna. Estava literalmente boiando na água, olhando o céu e sentindo a diferença de temperatura da água e do meu corpo quente do sol. Alguns barcos em volta de mim e eu boiando na água. Estava 100% ali e conseguia ouvir meu coração batendo, conseguia ouvir o barulho do mar. De repente me veio um insight e eu comecei a entender porque eu me levei tão distante de tudo e todos que conhecia.

Sai nadando em direção a areia para começar esse texto no bloco de notas do celular. Desde então peguei ele em várias das 25 cidades que passei na Italia. Peguei ele de novo no voo de Milão para São Paulo no início de novembro achando que fecharia para gravar e colocar no ar assim que chegasse.

Mas é só agora, início de dezembro que estou finalizando o texto, no meu sofá em São Paulo.

Pela primeira vez na vida, respeitei o poder da pausa. Mais do que isso.. entendi a necessidade dela.

Mas como parar se todo mundo ao nosso redor tá com tanta pressa?

Parece errado né? Imagina, não fazer nada?! Como assim.. tanta coisa acontecendo e eu não vou fazer nada?

Pois é… mas tanta coisa acontecendo, tanta gente fazendo um monte e não parece que está dando certo.

A gente tá fazendo muito e ainda não está bom. Ainda não é suficiente. A gente ainda não está feliz. A gente está sempre cansado e quase nunca satisfeito. Estamos ansiosos, com medo, tristes, frustrados.

Nos dedicamos a coisas e pessoas que às vezes nem são o que realmente gostamos e queremos. Pior.. às vezes a gente nem sabe o que gosta ou quer mesmo.

Toda essa pressa, esforço e abdicações do hoje vão ser a felicidade e paz do seu futuro?

Ou melhor, que futuro é esse que a gente passa a vida esperando enquanto esquece de perceber o agora?

É só quando a velocidade diminui que a gente consegue perceber a paisagem.

É no silêncio que a gente consegue escutar de verdade.

É na calma que a gente se conecta com o que existe.

E é justamente nesses momentos que conseguimos nos conectar com nossa essência, com a sabedoria milenar da natureza que nosso corpo carrega e que, assim como tudo na natureza, sabe que tudo tem seu tempo.

A gente precisa de tempo para digerir, para acomodar. Tudo o que vivemos e vemos se torna uma partezinha da gente e é só com calma que tudo se acomoda.

Na correria do dia-dia a gente coloca as coisas de qualquer jeito, empilha sentimentos, emoções, pensamentos, deixa tudo jogado e amontoado. Não paramos nem para ver o que que a gente está acumulando. Muito menos em cima do que ou de quem estamos jogando.

É o padrão que nossa sociedade se moldou, mas ele não funciona. Se funcionasse, não estaríamos tão carentes e ao mesmo tempo tão amedrontados de nos entregar e sentir. Não precisaríamos ir em festas e sair do corpo, nos intoxicar durante as férias ou fim de semana para anestesiar a semana ou o ano de trabalho. Não precisaríamos consumir tanto para ter um prazer momentâneo. Não iríamos comer de mais ou de menos.

Mas tudo bem.. é o processo, é com ele que conseguimos aprender e precisamos respeitá-lo. Mas respeitar o processo não quer dizer se acomodar e usar ele como justifica pela vida mais ou menos que estamos levando.

Nessa mesma semana de setembro na Sardegna, eu passei uma semana onde tem uma das maiores populações de centenários saudáveis e ativos do mundo.

Foi uma das experiências mais intensas que eu já tive. Eu entrei na casa deles, conheci a história, conversei com o médico que mais cuidou de centenários na Italia, com os pesquisadores que estudam os fatores desse fenômeno de longevidade, visitei sítios arqueológicos, produções de azeite, vinho, mel, queijo.

Você não faz ideia do que eu vi, ouvi e vivi. Eu tentei explicar para minha mãe, para meus amigos mas não tem como. Primeiro porque me emociona de um jeito que começo a chorar, segundo porque a gente não explica sentimento. A gente SENTE.

Qualquer tentativa de explicar sentimento fica muito, muito, muito menor.

Mesmo assim, eu vou tentar.

Começo dizendo que o tempo lá tinha outro ritmo. As cidadezinhas dos centenários não usam o mesmo relógio que a gente.

Eles não tem pressa, eles saboreiam os minutos. Eles fazem tempo para almoçar em uma quarta-feira com toda a família até às 3 da tarde.

Eles fazem tempo para preparar suas refeições, e mais que isso, seus alimentos.

Eles convivem perto da natureza e assim estão constantemente lembrando que as coisas levam tempo. A cabra não vai dar leite o tempo todo, porque quando ela engravidar ela vai amamentar o neném dela, não a gente.

Não vai ter pêssego o ano inteiro. A época de colher uva para fazer vinho é específica, não adianta achar ruim. Se quiser vinho de qualidade, você que respeite o tempo da uva.

Talvez por isso eles vivam mais de 100 anos. Eles não querem fazer tudo de uma vez.

Já a gente parece viver como se fôssemos morrer no fim do ano e infelizmente, às vezes é o que acontece.

Uma pressa, uma correria, uma ansiedade… pra que?

Pra morrer rico? Morrer magro? Morrer com cargo alto na empresa?

Sério, pra que a nossa pressa? Pra que essa ansiedade de querer ter mais. Por que a gente tem focado tanto nisso e tem esquecido em desenvolver o que realmente somos?

Estamos sempre querendo ir mais longe. Sempre achando que na frente vai ter algo melhor. Na outra cidade um lugar mais legal. No outro bar alguém mais interessante.

Mas não tem.. sabe por que? Porque a pessoa que continua buscando isso, ou seja, você, continua a mesma. E se você vive no mesmo mundo que eu, que não é o dos centenários sardos, você também desconhece o poder da pausa.

Conversando com eles, com os filhos, sobrinhos, vendo de perto o ritmo, ouvindo as conversas… não parece que eles pensam como a gente.

Não parece que eles acham que tem algo melhor amanhã do que tem hoje. Hoje tá bom.

Parece que eles escolhem e pronto. Não ficam questionando a escolha o tempo todo. Pensando que poderia ter algo melhor ou em dúvida se deveriam ter feito isso mesmo.

Não estou dizendo que devemos nos acomodar. Mas me pergunto se estamos correndo e buscando tanto pelos motivos certos ou se estamos correndo e buscando tanto só para anestesiar o nosso dia-dia, de uma sociedade que faz quase nada para sair do superficial.

Eu fui em um restaurante de agriturismo em uma cidade chamada Ogliastra, na mesma região dos centenários da Sardegna. A Franca e a família dela recebem turistas e cozinham uma refeição impecável e maravilhosa com o que eles cultivam: do vinho ao queijo, pão, carne, vegetais, frutas e massa.

Eles me receberam muito bem, me senti querida, bem-vinda e pude ajudar ela na cozinha enquanto eles me explicavam como faziam a farinha de sêmola, a massa, os recheios, o queijo.

Consegui sentir como eles são felizes, satisfeitos e orgulhosos com o trabalho e família que tem.

Em um momento falei para o marido dela que onde moro, em São Paulo, tem 12 milhões de pessoas e que para mim ver tudo aquilo era algo muito especial e diferente.

Eles olharam incrédulos e falaram que 12 milhões de pessoas em uma cidade é muito. A Franca sorriu, disse que ali eles são em 5, um pouco mais quando recebem mais pessoas. O marido dela olhou pra ela sorrindo e disse ‘e va bene’, deu um sorriso e beijou ela.

E aí me deu mais um click.

A gente realmente não precisa de muito para ser feliz.

E talvez seja justamente na pausa, no intervalo, fazendo nada que a gente consiga saber o que precisamos de fato.

Na distância do agito, sem tanto estímulo o tempo todo, sem tanto barulho. No silêncio, no recolhimento, na escuridão, no vazio e até na tristeza e na solidão.

É ali que encontramos o que buscamos tanto fora.

Mas pra isso você precisa da pausa.

Você não sabe como tem sido transformador diminuir o ritmo.

Parar. Deixar de fazer. Deixar dar errado. Deixar acontecer o que acontecer.

Largar as expectativas que eu mesma criei e que quando parei para ouvir, percebi que não ressoavam com o que eu queria de verdade.

Estamos em dezembro, e naturalmente ficamos mais reflexivos. Quero convidar você a se entregar ao poder da pausa.

Pare totalmente por pelo menos 10 minutos por dia de hoje até o dia que você sentir ou ouvir algo que não esperava.

Não faça nada a não ser estar onde você estiver.

Sem celular. Sem companhia. Sem livros. Sem fone de ouvido. Sem música.

Pare tudo e fique em silêncio.

Onde você quiser, onde você gostar, onde você puder.

mantenha essa prática pelo tempo necessário. Não tenha pressa. Nada de valor surge do nada. Construa sua pausa. Coloca a sementinha, regue, de tempo e espaço.

Quando você menos esperar vai vir o brotinho, e a partir dali, só vai ampliar.

Se entregue ao poder da pausa.

Ouça sua respiração. A respiração de quem está do seu lado.

Ouça a sua voz e a voz de quem está com você.

Quando estiver, esteja 100%.