Só existe começo porque existe fim

Só existe começo porque existe fim. Por mais que racionalmente a gente entenda e concorde, nosso emocional não parece lidar muito bem com esse fluxo natural das coisas. No primeiro episódio do meu podcast conto como anos se passaram até esse projeto começar, porque haviam assuntos a serem finalizados antes.
Falo sobre como muitas vezes não atingimos nossos objetivos pois são baseados no que a gente acha que quer e não no que realmente queremos e como podemos começar a buscar e viver como realmente queremos.

Tags: incomodo / podcast

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Eu amo começos! Acho que tem poucas coisas que nos deixam tão empolgados e com brilho nos olhos quanto começos.

Mas para algo começar, algo deve terminar. Não tem como negociar, não tem início se não tem fim.

E por mais que a gente entenda isso racionalmente, nosso emocional pode não reagir tão bem a essa ideia. E isso é curioso.. sabe há quanto tempo eu tenho o texto com título “Início podcast” no meu computador? Quase 1 ano e meio.

Em setembro de 2017 eu escrevi o roteiro do meu primeiro podcast com a certeza de que ele estaria disponível para o mundo algumas semanas depois.. e veja só, estamos em janeiro de 2019 e ele nunca virou áudio.

Eu sou a Flavia Machioni, sou Health Coach e criei o blog Lactose Não em 2012. Desde então venho trabalhando com alimentação e saúde e hoje ajudo pessoas a transformarem suas vidas começando pela cozinha.

Esse texto é o roteiro do primeiro episódio da temporada inicial do meu Podcast, esse que penso em fazer há anos, mas que tive que terminar algumas coisas para poder começar aqui.

Além do projeto do podcast, existe o projeto de publicar mais meus textos e aqui estamos, experimentando esse espaço que até agora só frequentava como leitora.

Sentada na m*rda esperando virar adubo

2017 e 2018 foram anos muito transformadores pra mim. O que antes era um incomodo leve passou a ser um incomodo constante. Alguns pensamentos que estavam sendo cada vez mais presentes, medos que eu estava vendo que tinha e estavam aumentando, incertezas com as decisões que eu tinha tomado, irritação com situações e pessoas.. eu sentia que era uma panela de pressão prestes a explodir.

No fim de 2017 tive um episódio de crise de ansiedade, no avião. Parece que eu estava certa quando escrevi em junho daquele ano que estava menos surtada, e logo reiterei Quer dizer, menos surtada nos assuntos dos últimos meses porque bem sei que o mundo é um caldeirão rico e vasto de surtos possíveis e eminentes.

Estava voltando de um cruzeiro com minha família e uma onda de sentimentos surgiu. Na verdade foi mais para um tsunami. Eu chorava, tremia, sentia frio e calor ao mesmo tempo e só conseguia falar como nada fazia sentido. Meu namorado estava comigo nesse vôo e me acalmou… chegamos em casa e eu estava arrasada. Logo eu, que medito, que me questiono tanto, que estava com planejamentos prontos para 2018, tive essa crise.

Fiquei muito triste, mas decidi ver isso como um sinal de que eu não estava prestando atenção no que devia. Resolvi olhar quais as metas que havia definido para 2018, umas semanas antes da viagem, e tudo era relacionado a trabalho e dinheiro. Queria fazer X coisas, em Y tempo e juntar Z dinheiros. Tão vazio.

Sentei em silêncio. Ouvi podcasts. Meditei. Resolvi rescrever todas as minhas metas e chamei elas de intenções. Não tinha mais nada sobre trabalho, nem sobre dinheiro.

Tinha só eu. Intenções minhas, comigo mesma, de alguém que estava cansada de se sentir mal.

Algumas das minhas intenções foram:

Saborear a vida sem culpa.

Curtir 100% o momento para mim sem postar e dividir.

Escolher e fazer. Sem dúvidas, culpa ou receio.

Focar na criação e manifestação, os resultados não são eu.

Honrar minha família e amigos sendo mais presente.

Essa mudança, de trocar as metas por intenções, fez toda a diferença para o meu ano.

Em 2018 foquei minha energia nelas e fui atrás do que precisava. Li muitos livros, comecei terapia com psicóloga, fiz terapias alternativas, me ausentei quando precisei, chorei litros para as amigas e família. Tiveram meses que eu queria só desistir, mandar tudo a merda e ir morar em outro país — de verdade!

Mas aí eu lembrei que isso só ia resolver momentaneamente. Eu ia acabar voltando pro mesmo lugar, na mesma situação, eventualmente. Então eu fiquei.

Como dizia pra minha mãe: sentia que estava sentada na merda tentando meditar e que não podia sair dali até ela virar adubo e florescer algo. Felizmente nunca tive que literalmente ficar sentada na merda, mas posso dizer que metaforicamente já é bem desconfortável.

Mas, para algo começar, algo precisa acabar. Não tem começo se não tem fim.

E é aí que a gente começa a esbarrar naqueles planos que nunca saíram do papel, sabe?

Sabe aquela lista clichê de início de ano? Começar academia, aprender um novo idioma, ler 1 livro por mês, guardar dinheiro?

Ela não funciona porque ela se baseia no que você acha que quer.. não no que você realmente quer.

Levei anos para entender isso.. veja que eu precisei ter uma crise de ansiedade no meio de um vôo para ver que o que eu estava buscando não era o que eu queria ou precisava.

De todo meu coração, espero que você não precise passar por isso para conseguir se conectar com você mesmo.

O seu poder de escolha

Nos 7 anos que trabalho com alimentação e saúde eu perdi as contas de quantas vezes eu ouvi pessoas falando que não conseguem, não tem tempo ou não tem dinheiro para resolver o que as incomoda. São histórias que a gente conta pra gente e pros outros para validar a ideia de que o que está acontecendo com a gente não fomos nós que escolhemos. É mais fácil a gente se colocar como vítima, né? “Se não escolhi, a culpa não é minha. Eu sou apenas injustiçado ou maltratado. Não tive sorte como alguns tem.”

Quem não conhece alguém que pensa assim? Muitas vezes nós mesmos pensamos assim.

Mas a verdade é que você tem escolha sim, inclusive foi você quem escolheu tudo o que está vivendo agora.

Você pode estar pensando “Ah, Flavia, até parece que alguém escolhe, por exemplo, ficar doente” e concordo que é uma ideia desconcertante, mas no fundo é isso mesmo.

Ninguém fica doente da noite pro dia. É uma série de fatores que somados culminam em doença, e esses fatores, como a epigenética vem provando, são mais comportamentais do que genéticos. Isso quer dizer que suas escolhas diárias, seu estilo de vida, sua alimentação, a maneira como lida com o que sente e pensa, influenciam sua saúde.

A partir do momento que aceitamos esse conceito como verdade, percebemos que a responsabilidade é nossa e muita coisa começa a mudar.

Talvez você perceba que aqueles quilos que você sempre pensa que quer eliminar, na verdade são a explicação mais superficial para uma dificuldade de se olhar no espelho e enxergar a sua beleza.

Talvez o seu sofrimento em querer parar de comer doce mas dizer que não consegue ficar sem é só reflexo de um apego seu a algo que não te faz tão bem, mas que você acreditou por muito tempo que não consegue viver sem.

Talvez a dificuldade em iniciar ou manter uma rotina de exercícios seja por não ter o objetivo certo em mente.

O que a gente acha que quer, não é o que realmente queremos.

E se colocamos como objetivos o que a gente acha que quer, é muito difícil conseguir. Porque na primeira dificuldade ou contratempo, a gente vai perder a vontade de continuar e se tem algo certo nessa vida é que contratempos vão existir, sempre!

E aí, se você se propõe a fazer algo que nem quer muito e desiste, você vai reforçar a ideia de que não consegue cumprir o que prometeu ou combinou e vai ficar frustrado, triste, irritado ou envergonhado.

Mas esse cenário não é o pior.. pior é quando a gente está fazendo algo sem realmente querer e demoramos muito para perceber.

Todos já passamos por isso.. a gente aceita ou diz sim sem pensar muito e vai indo, com o fluxo. Não queremos muito, mas também não temos nenhum motivo excepcional para falar não, aí aceitamos uma proposta de emprego.

Ou um convite para sair. Ou ficamos em um relacionamento morno.

Tudo porque não paramos pra ver o que realmente queríamos, deixamos os outros decidirem pela gente.

Ficamos naquele emprego estável mas que não nos traz desenvolvimento pessoal. Ficamos naquele relacionamento que não tem nada de uau, mas também não tem nada de péssimo. Vamos àquela festa que nem gostamos da música, mas tivemos preguiça de pensar em outra coisa.

Gastamos nosso dinheiro em coisas que nem queríamos tanto. Gastamos nosso tempo com pessoas que nem gostamos tanto. Passamos o dia fazendo coisas que nem nos interessamos tanto.

E aí vamos, no fluxo da monotonia, levando a vida como se tivéssemos certeza que vamos voltar pra esse mundão várias vezes e aproveitar tudo o que tem.

Eu não sei você, mas eu não quero isso pra mim. E posso até não saber exatamente o que quero, mas eu decidi que isso aí eu definitivamente não quero.

E a palavra mais libertadora que tenho usado desde então é: NÃO!

Não vou, não quero, não gosto, não, não, não!

Mas pra falar esse não libertador aí, adivinha? Temos que saber o que realmente queremos.

Talvez você esteja pensando, mas e como eu descubro o que realmente quero?

Ouvindo você mesmo!

Uma resposta bem simples, mas que na prática não se mostra tão fácil. Como Daniel Goleman, autor do livro Inteligência Emocional, diz, muita informação impede a atenção. Por isso a maneira como levamos nossas vidas, na correria do dia-dia com mil e uma informações simultâneas, não nos dá tempo de parar e prestar atenção.

Quanto mais você conseguir prestar atenção, mais pistas vai ter do que realmente é importante pra você.

O que fazer, então?

Proponho um exercício, nos próximos dias, preste atenção se você tem algum pensamento recorrente. Às vezes ele já está tão forte que só ao ler aqui você já pensou.

Depois, continue a focar sua atenção nesse pensamento e veja se consegue ver como se sente. Você fica animado? Feliz? Triste? Com medo? Com raiva?

Qualquer que seja o sentimento, sinta ele. Depois reflita, veja se consegue entender porque o pensamento te fez sentir assim e se ele indica algo que você quer ou que não quer.

Quanto mais fazemos esse simples processo, mais conectados com nós mesmos ficamos e assim, conseguimos ir descobrindo o que realmente queremos.

Nessa descoberta você pode se deparar com a necessidade de um fim. E tudo bem! Se não tiver fim, não vai ter começo.

E se você ficar com medo, tudo bem.. eu também tenho medo em todo fim e todo começo. Às vezes eu demoro 1 ano e meio, às vezes demoro 7, às vezes a gente demora uma vida inteira para poder finalizar algo e dar espaço pro novo vir. Só não desista por medo.

Você só vai conseguir o que realmente quer se você aproveitar os desafios que surgirem para trazer à tona seu verdadeiro eu, porque são eles que vão fazer você passar por dificuldades, questionar elas e conecta-se a algo mais profundo, prestando atenção.

Esse meu novo projeto é um desafio, e faz parte do que realmente quero. Tanto que é uma ideia recorrente há anos.

Você pode ouvir esse texto como podcast (sim, eu gravei!!) e também pode me acompanhar no YouTube e Instagram.

Um beijo, gente linda!