A questão do contetxo

Hábitos para viver até os 100 anos, dieta para uma longevidade ativa, tecnologia para retardar o envelhecimento.. e ainda assim, são poucos os que envelhecem com saúde.
Minha experiência com os centenários da Blue Zone da Sardegna me fez ver que a teoria da longevidade saudável não estava muito alinhada à prática do nosso dia-dia. Hoje divido com você o primeiro ponto do porque!

Tags: longevidade / podcast

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Imagina que máximo você ter o poder de através das suas decisões do dia-dia, hábitos e ambiente que escolhe viver, poder chegar aos 100 anos com qualidade, lucidez e saúde?

Isso é a realidade dos centenários das chamadas Blue Zones, ou Zonas Azuis. Cinco regiões do mundo com a maior taxa de longevidade saudável.

Ouvi sobre elas pela primeira vez há uns cinco anos, e achei fantástico logo de cara! 

Ano passado, depois de uma série de coincidências, eu decidi ir para a Sardegna, uma ilha italiana paradisíaca com um mar que vai do azul ao esmeralda e comida fresca e deliciosa, para conhecer de perto esses velhinhos e essa Blue Zone que eles moram.

E sabe, uma coisa era conhecer o conceito. A outra foi ver e sentir na prática.

Eu já tinha lido bastante sobre, já tinha visto filmes, documentários, já tinha até feito as receitas que eles fazem. Na minha cabeça, eu já estava no caminho… claro que eu ia ser uma dessas velhinhas. Eu tinha até a pretensão de falar que minha casa era uma mini Blue Zone…

Mas nada como a realidade dar um tapinha na nossa cara, né?! A semana que passei lá me mostrou como eu tava loooooonge de qualquer coisa semelhante aquilo.

Antes de te contar qual foi o primeiro e maior erro que vi que eu estava cometendo, quero contextualizar o conceito.

O conceito das Blue Zones foi criado pelo médico e pesquisador italiano Gianni Pes que percebeu o fenômeno de longevidade em uma região da Sardegna, na Italia.

Depois de conhecer o trabalho do Dr. Gianni Pes, o jornalista americano Dan Buettner aprofundou as pesquisas e encontrou outras 4 Blue Zones no mundo na Costa Rica, California, Grécia e Japão. 

Dan encontrou 8 pontos em comum em todas essas regiões, são eles:

  1. Mover-se naturalmente,
  2. Ter um propósito de vida,
  3. Ter momentos para desacelerar,
  4. Regra dos 80% ao se alimentar,
  5. Alimentação com base em vegetais,
  6. Beber vinho com família e amigos às 17h,
  7. Dar prioridade a quem amamos,
  8. Escolher a tribo certa.

Percebeu que a maior parte dos pontos encontrados por ele são sobre estilo de vida e valores? 

Pois é.. eu também tinha percebido isso logo de cara.

E eu realmente achava que estava fazendo certo.. eu me movia naturalmente, tenho claro meu proposito, tinha momentos para desacelerar, me alimentava bem, com bastante vegetais, o vinho com certeza era uma presença na minha semana, eu tinha minha tribo e achava que dava prioridade a quem amo.

Mas aí, eu fui até lá e vi como eles faziam isso.

Sabe aqueles memes de expectativa versus realidade? Era eu ali.

Vou descrever alguns desses momentos em que me tornei um meme, e que você pode assistir com as imagens reais no video que está no meu canal do YouTube, para você entender qual o meu primeiro ponto para a longevidade possível.

Beber vinho às 17h. Foi constatado que 1 a 2 taças de vinho na presença de amigos e familiares era um hábito desses centenários.

 Eu, em São Paulo escolho um barzinho ou restaurante e vou fazer um Happy Hour com alguns amigos. Agora, me responde..

É possível que esse número de taças se extenda?

É possível que eu esteja tomando esse vinho ou um drink para anestesiar um dia ou semana terrível e cansativa? 

É possível que algumas pessoas façam isso diariamente para fugir de suas realidades?

É possível que grande parte dos meus amigos e conhecidos façam o mesmo e assim pareça normal?

Agora, vamos olhar o pessoal da Blue Zone italiana. Eles bebem 1 ou 2 taças do vinho da uva que plantaram, colheram, fermentaram e guardaram por alguns anos antes de abrir. Ou se não foram eles que fizeram isso, foi algum conhecido, vizinho, amigo, primo.

Só por isso, você já trata o vinho de forma diferente. Você respeita, porque você sabe do esforço que tem naquela garrafa.

Sobre os motivos para o consumo, são suposições minhas, mas pelo que vi de onde eles moram e de como vivem, as preocupações parecem ser bem outras.

Vou pegar mais um ponto: ter momentos para desacelerar.

Eu, medito todo dia. Nos últimos anos me esforcei para tornar o hábito parte do meu dia. Eu parava nem que fosse cinco minutinhos do meu dia e isso já fazia eu me sentir vencedora, tipo, estou arrasando, o estresse não manda em mim, 100 anos eu to chegando!

Aí, desligava meu timer de meditação e seguia com minha rotina básica e normal: respondendo e-mail enquanto terminava edição de vídeo, falava com a minha mãe no telefone enquanto escolhia as fotos pro próximo post, fazia compras no mercado enquanto respondia dúvidas, jantava com amigos enquanto passeava no feed do Instagram. Ah, mas calma, tem um outro ponto melhor ainda: quando fazia drenagem para relaxar e aproveitava para ouvir um audio livro ou um podcast para aprender uns conceitos a mais.

Vamos ver meus amigos da Sardegna:

Meio-dia eles param. Vão para o barzinho da cidade, batem papo, assistem um futebol velho na TV. Ou, recebem alguns amigos em plena quarta-feira para um almoço tranquilo que vai até às 3 da tarde.

Eles não tem Instagram. Eles não estão em 3, 4 lugares ao mesmo tempo.

Ou seja, mesmo quando eu pisava no freio, eu ainda tava muito mais rápida do que eles pisando no acelerador. 

Contei só dois dos tapas na cara que levei desses adoráveis senhores que me alimentaram muito bem e me encheram de carinho e histórias incríveis.. mas isso é suficiente para eu entrar no meu tema de hoje:

O choque de realidade que tive ao conhecer esse povo, me faz pensar num detalhe que não vi muitas pessoas comentando quando falam das Blue Zones e de longevidade:

CONTEXTO

Nós estamos acostumados a receber essas fórmulas mágicas, listas de bons hábitos, de alimentos, de coisas permitidas e proibidas, de ideias aceitáveis e abomináveis, e acabamos esquecendo de colocar as coisas em seu devido contexto.

Assim, nos tornamos uma geração que sai repetindo um monte de besteira, que se acha superior aos demais por ter uma determinada visão social, econômico ou política, que tem a petulância de dizer que não gosta de determinada pessoa porque votou no Y ou no Z.

Viramos a geração que tem que perguntar pra outra pessoa o que pode ou não comer, que fica na dúvida se tem que comer quando não tem fome, que fica indo no lugar que todo mundo foi e continua eternamente insatisfeita.

E isso, gente, é ridiculo. É completamente rídiculo a gente querer diminuir e simplificar as coisas com essa dualidade infantil.

Infantil porque me parece óbvio que isso não está funcionando.

Não só no dia-dia, mas no longo prazo.

Tem tanto material lindo sobre as Blue Zones, tanta pesquisa incrível, avanços maravilhosos na ciência, porque então que estamos com a possibilidade de pela primeira vez na história da humanidade ter a geração mais nova morrendo mais jovem que a anterior?

Eu tenho minha teoria e parte dela vem justamente do problema do contexto, ou melhor, da falta dele.

Ingênuos nós, mortais que habitam cidades grandes, que estamos mentalmente em 4 lugares ao mesmo tempo, sem tempo para sentar para comer com calma, pouco contato com a natureza, pouco convívio com a família, achar que tomar vinho às 17h e ter um proposito (que hoje confundimos tanto com escolha de area de atuação profissional), nos aproxima dos hábitos de velhinhos longevos e saudáveis.

Como vamos nos comparar com quem vive até hoje com proximidade com a natureza, presenciando ou até participando da produção local do produto que consomem?

Eles não tiveram o tanto de possibilidades que nós temos. 

Eles não tiveram o tanto de conforto que nós temos.

Eles não tiveram acesso fácil ao que temos hoje.

A gente não precisa subir nem descer escada, não precisa se preocupar em matar um animal para comer no almoço, nem esperar o tempo do cultivo de qualquer fruta ou legume para consumo. 

A vida mudou. O mundo mudou.

Somos uma geração que tem muita opção.

Nós temos acesso a muita coisa, o tempo todo. Não estamos acostumados a esperar o tempo de cultivo de nada, a gente está acostumado ao fast food, ao fast fashion, a suprir nossos desejos e vontades com rapidez e com pouco esforço, sejam eles desejos alimentícios ou amorosos. A gente pode descartar alguém arrastando o dedo em uma tela.

E assim, nós vivemos o paradoxo da escolha. Um conceito do psicólogo americano Barry Scwartz que basicamente diz que quanto mais opção temos, menos satisfeitos ficamos com a escolha. 

A ideia que ali na frente poderia ter algo ou alguém melhor. 

Sempre vivendo por algo que não temos ainda, e que claro, não vamos ter.. pq não existe e pq sempre vamos pensar que a gnt que não achou ainda.

Assim, a gente vive o máximo do hoje pouco pensando em abrir mão de algo pelo amanhã. Na verdade, pouco pensando nesse amanhã.

Mas, continuamos querendo ser os velhinhos saudáveis.

Olhar para eles e achar que estamos fazendo igual, é ridículo. De verdade.

Mas eu sei também que não é fácil viver hoje como eles viveram. O mundo mudou muito.

A gente tem que observar eles e extrair o que dá. 

O que dá, hoje, é começar a refletir em alguns pontos e fazer pequenas mudanças no seu dia. Escolher incluir algumas coisas, diminuir outras.

Vou te ajudar nesse processo durante as próximas semanas.

Hoje, o que sugiro que faça, é tirar 1 hora do seu dia e pensar no seu plano de vida.

Antes de começar qualquer ação, é necessário ter um mínimo de planejamento. Se não, viramos um barquinho a deriva que vai para onde o vento leva.

Para começar pensando na sua longevidade saudável,  vou pedir para você abrir seu bloco de notas ou um caderninho e escrever o seguinte:

Plano de vida.

Abaixo escreva em três colunas:

10, 20, 30 anos.

Então, em três linhas separadas escreva:

Como quero estar me sentindo.

Onde quero estar.

Quem estará ao meu lado.

Faça esse exercício com calma. Imagine-se nas situações, e escreva o que vier na sua cabeça.

Foque em como você quer se sentir, qual o cenário que está ao seu redor e quem está junto com você.

Assim como na temporada anterior, os episódios dessa serão complementares uns aos outros.

Por isso, te espero na semana que vem para aprofundarmos a reflexão e vermos um outro ponto que me balançou: como eu estava escolhendo meus parceiros de jornada.

Um beijo!