A questão do propósito

Por que você acorda todo dia? Você sabe qual seu propósito de vida?
Para especialistas, saber responder isso, ou seja, ter claro o seu propósito de vida, pode te dar até 7 anos a mais de vida e é uma das características comuns aos centenários das Blue Zones.
Todos já ouvimos sobre o propósito, inclusive que trabalhar com ele, com aquilo que nos torna únicos e especiais, vai nos fazer feliz e deixar a vida com sentido, não é?
Convido você a ouvir este episódio para quem sabe realmente encontrar seu propósito de vida.

Escucha “T03E04 – A questão do propósito” en Spreaker.

Segundo os pesquisadores das Blue Zones, as áreas com maior índice de longevidade saudável do mundo, um dos pontos em comum dos velhinhos felizes e saudáveis é o senso de propósito.

Como está escrito no site oficial da Blue Zone: os centenários sabem o porque eles levantam todo dia de manhã, e segundo o site, saber seu senso de propósito vale até sete anos a mais na sua expectativa de vida.

São cinco blue zones no mundo, e cada uma, segundo o site, chama o propósito de vida de algo, como por exemplo Ikigai, em Okinawa no Japão, ou “plan de vida” na Costa Rica.

Mas, o que é ter um propósito de vida quando falamos de longevidade?

Pelo o que pude perceber, senso de propósito de quem tem quase 100 anos hoje, com certeza não é o senso de propósito de quem está hoje com seus 20, 30, 40 ou 50 anos.

Se você chegou aqui por acaso, vou te dar um breve contexto. Ano passado eu fui passar uma semana na Blue Zone italiana da Sardegna para conhecer de perto esses centenários saudáveis e lúcidos. Fui na casa deles, conversei com o médico que cuida deles, conheci a história da terra deles e comi a comida que eles comem.

Fui na expectativa de conseguir trazer algo para minha realidade, que é também a realidade de grande parte de nós: jovens e adultos com vidas corridas, mil e uma obrigações, mil e uma vontade e mil e uma dúvidas.

Um ano depois estou organizando tudo o que vi, senti e vivi em 12 episódios aqui no Bocadinho. A cada episódio eu estou trazendo um hábito da Blue Zone e analisando como podemos fazer uma longevidade possível e usar o Poder do Tempo.

Esses dias, fiz algumas perguntas para mim e que quero fazer para você:

O que faz você acordar todos os dias? O despertador? A obrigação? As contas na mesa com o vencimento chegando?

Isso que te faz acordar todos os dias às vezes também tira seu sono ou te deixa angustiado durante o dia?

E aí, lá vamos nós de novo em mais um episódio do meme expectativa versus realidade que eu virei naquela ilha maravilhosa e especial que é a Sardegna.

 

 

O início do problema está, como na maior parte das vezes, na falta de um conceito claro do que é esse propósito.

Para nós, jovens e adultos que não temos ainda 100, 90, 80 ou 70 anos, propósito é sinônimo de trabalho, emprego, carreira e profissão.

E o propósito é tipo um unicórnio encantado, que um dia vamos encontrar, pular em cima dele e saltitar em campos floridos e cheio de arco-iris. Ou, trocando nas palavras que usamos hoje: vamos trabalhar com o que amamos.Ficaremos ricos e reconhecidos fazendo aquilo que nos torna único e especial e assim nós vamos saber exatamente porque estamos aqui, vamos viver o nosso propósito e viveremos felizes.

Uma história fofinha para criança, mas que chega a ser constrangedor pensar nos adultos que ainda acreditam nisso.

Já para os velhinhos das Blue Zones, a ideia de ter o sentido de suas vidas baseado em um trabalho que se ame é algo impensável. Não sei se você sabia, mas muitos desses velhinhos centenários de hoje, não sabem nem ler e escrever com a facilidade que nós sabemos. Quem dirá acreditar que é possível amar o seu trabalho e que isso vá fazer você ver sentido em levantar todo dia para viver da melhor forma.

E aqui estamos nós novamente frente a frente com a simplicidade infantil com a qual romantizamos os hábitos dos centenários e achamos que isso vai nos fazer chegar aos 100 e que, na minha opinião, está mais para deixar a gente no meio do caminho frustrado e cansado do que chegar lá feliz e satisfeito.

 

 

Nossa geração tem possibilidades que nunca existiram na história. Principalmente se falamos em trabalho, carreira, profissão.

Eu, por exemplo, criei uma empresa do zero e comecei ela por acaso escrevendo artigos para meu blog, quando eu tinha 24 anos. Hoje, 8 anos depois, eu alcanço milhões de pessoas mensalmente, criei produtos com meu nome, dei aulas no Brasil e fora, e sim, eu amo o que eu faço.

Histórias como a minha são cada vez mais comuns. 

Mas isso, é um fenômeno social e econômico recente. Quando eu sai da faculdade, 10 anos atrás, isso não existia. A minha profissão surgiu enquanto eu estava trabalhando com ela. Esse é mais um dos motivos pra gente já tirar da cabeça que a ideia de um propósito de vida seja baseado em trabalho, carreira e profissão.

Acontece que, infelizmente, histórias como a minha reforçam a ideia de que ter um propósito de vida está intimamente ligado com trabalhar com o que se ama. Até porque, como eu disse no episódio O Problema do Romance, da temporada passada, a gente costuma ver a realidade por uma lente míope. E aí, achamos que a foto do Instagram num dia de sol no meio das férias, é o dia-dia do empresário de sucesso. Sendo que bem sabemos que o dia-dia é bem menos colorido e divertido do que a gente idealiza.

E aí que começa o problema porque acreditar que ao trabalhar com o que se ama vai fazer sua vida ter sentido você vai

  1. ficar angustiado até encontrar o que é que você ama
  2. te deixar ansioso para descobrir como você vai ganhar bastante dinheiro e ser reconhecido fazendo o que ama
  3. deixar de perceber o que realmente traz sentido para a vida.

 

Entende porque não dá para a gente achar que propósito de vida é sinônimo de trabalho, carreira, profissão?

Meu objetivo aqui é que a gente acorde todo dia com um propósito, mas que esse seja um propósito que nos ajude a chegar até os 100, não que nos mate no meio do caminho Então, vou falar sobre cada um desses pontos em detalhe.. 

O primeiro ponto: a angústia que muitos sentem por não saberem, não terem encontrado ou não amarem o que fazem como profissão.

Como sou uma das pessoas que trabalha de fato com o que ama e com o que escolheu, por muito tempo eu acreditei que era isso mesmo: trabalhe com o que ama e você vai ser bem sucedido e feliz.

Mas, nada como ser empreendedora e autônoma para ver que o unicórnio que eu pulei era na verdade um pônei que tinha caído na tinta.

Aquela frase de “trabalhe com o que você ama que nunca mais trabalhará um dia na sua vida” com certeza não foi dita por alguém que trabalhava de verdade.

Amar o objeto do seu trabalho não faz com o que o trabalho seja mais fácil. Também não te dá um atalho para ter sucesso mais rápido. Na verdade, ao optar transformar sua paixão em trabalho você corre um risco enorme de ser mais um bobo apaixonado metendo os pés pelas mãos! Porque quando você ama você faz recortes da realidade, você não quer abrir mão, às vezes toma decisões não muito racionais.. 

Em uma das inúmeras crises que eu já tive na minha jornada profissional, me indicaram um livro chamado So Good They Can’t Ignore You, em português algo como “Tão bom que eles não conseguem te ignorar” do Cal Newport.

Para o autor, habilidades importam mais que paixão para conquistar um trabalho que se ame. Basicamente você primeiro tem que ser bom em algo para depois esperar um bom trabalho. 

O autor dá alguns exemplos reais de pessoas que trocaram carreiras sólidas por paixões repentinas, como uma jovem executiva que cansada do estresse do trabalho corporativo, tirou férias no caribe, fez um curso de Yoga de 10 dias, amou e resolveu que largaria tudo para se tornar instrutora de yoga.

O que aconteceu? Exatamente, deu super errado! Ela não percebeu que fazer yoga por 30 dias e amar isso não era suficiente para tornar ela uma boa profissional de yoga e realmente fazer uma carreira disso.

Cal Newport dá outros exemplos, mais inspiradores do que nossa ansiosa professora de yoga, como da cientista que se dedicou anos a fio a mesma pesquisa e que depois de décadas hoje em dia é reconhecida mundialmente e ama o que faz.

Ou seja, ter amor pelo objeto do seu trabalho não garante que você vai ser bom naquilo, bem sucedido e feliz.

O que garante que você seja bom no que você faz é o tempo que você investe incansavelmente e com muita paciência naquilo. O que ele chama de prática deliberada, e que como ele mesmo diz, normalmente é o oposto do que é agradável. É aquilo que te tira da zona de conforto e que faz você se esforçar mais e ir mais além.

E isso, foi libertador pra mim. Eu ouvi tanto que ao trabalhar com que eu amo eu teria sucesso, que estava ficando cada vez mais frustrada com a aparente demora do meu sucesso. Entender que era perfeitamente normal eu ainda não ter o reconhecimento que quero, porque faz parte da jornada de qualquer profissional tirou um caminhão das minhas costas.

Se você ouviu meu episódio anterior talvez já esteja percebendo que um dos hábitos verdadeiros dos centenários lúcidos e saudáveis é a dedicação incansável e a paciência… algo que nossa geração tá passando longe.

Mas, voltando a questão da lenda urbana que virou o propósito de vida pela profissão que se ama.

Nessa busca do que se ama, quantos já não ficaram ansiosos tentando descobrir como iriam ganhar dinheiro e ficar reconhecidos com aquilo? Ouvimos essas besteiras de que ter um propósito de vida e acordar feliz todos os dias está totalmente ligado com sua paixão, seu talento, com o que você amava fazer quando criança e aí metemos os pés pelas mãos e fazemos coisas esquisitas… 

Tipo querer largar tudo de uma hora pra outra porque em uma viagem conhecemos um produto super incrível e que agora vamos começar a produzir e vender, mesmo sem nunca ter tido experiência alguma com produção, vendas, estoque, finanças e gestão.

Mais uma vez, a gente tenta inverter a ordem natural do processo: primeiro você trabalha bastante, aprende, se aperfeiçoa, aí entrega um trabalho bom e daí você é reconhecido.

Não tem atalho.

E se você estiver pensando que tem sim, pq tem um conhecido que com apenas X anos já tem Y, Z e W.. pense bem na história e perceba quantos fenômenos assim surgiram rápido e desapareceram mais rápido ainda.

Isso, para mim, não é carreira de sucesso. É um evento pontual contado de forma interessante que prendeu atenção de bastante gente por um curto tempo.

Para uma construção ser sólida, precisa de tempo, de consistência, de dedicação.

E aí a gente esbarra em mais uma questão: a nossa inquietação. imediatismo e ansiedade para chegar lá.

Aí, surge um conceito moderno de propósito de vida baseado em um trabalho que você ama, na sua paixão desde pequenininho que agora você lindamente entrega para o mundo e todos enxergam um valor incrível nisso, e a gente fica mais perdido, angustiado e frustrado ainda.

Lá na Blue Zone da Sardegna, eu percebi que nenhuma daquelas pessoas com quem eu conversei falou sobre seu trabalho como a grande fonte de sentido da sua vida.

Mesmo quem eu fui conhecer trabalhando, como os pastores, apicultores, produtores de vinho, azeite e massas, o que eu vi em comum com eles foi a dedicação ao que fazem.

O conhecimento profundo sobre as abelhas, sobre as cabras, sobre as uvas, os cereais, as azeitonas.

Não uma paixão cega que faz eles pensarem que a vida é aquilo ali. Que se não fosse aquilo nada faria sentido.. não foi isso que eles me passaram.

 

Já falei aqui como ver tudo isso mexeu comigo né? Eu que jurava que tinha meu propósito de vida bem claro, comecei a me questionar tanto que não me reconhecia mais.

A ansiedade que eu vinha vivendo nos últimos anos de conquistar, alcançar e ser reconhecida de repente deu lugar para um vazio tão grande, mas tão grande que até questionar se eu realmente gostava do que eu estava fazendo eu questionei.

Em um certo momento do ano passado eu me vi querendo deliberadamente que tudo desse errado. Não foi fácil.. ver que a pressa que eu estava para chegar em algum lugar estava me levando para um lugar vazio e sem sentido foi bem difícil de encarar.

Mas então, como é que a gente encontra um propósito se ele não necessariamente está atrelado a nossa escolha profissional? 

Para responder isso vou pedir ajuda de dois amigos meus.. ok, eles não são meus amigos, mas eu li os livros deles e gostei, porque me trouxeram novas possibilidades para encontrar esse tal propósito de vida.

Primeiro o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, autor do livro FLOW que pesquisou por anos o que faz uma experiência ser genuinamente satisfatória e chegou a conclusão que é um estado de consciência que ele chamou de flow, ou em português, fluir. 

O trabalho de Csikszentmihalyi é amplamente usado em pesquisas e livros atuais sobre motivação, e não é por menos, ele fez um trabalho muito interessante e chegou a conclusões bem diferentes do que antes se sabia sobre motivação. 

A principal contribuição dele foi o fato de que a motivação é algo interno e não externo. Portanto depende muito do próprio individuo.

Para ele, quanto mais a pessoa consegue entrar nesse período de flow, ou fluidez, mais motivação ela tem para continuar seguindo.

Durante esse período de fluidez a pessoa experimenta uma satisfação e criatividade profundas e um envolvimento total com a vida. 

Segundo ele, assim nós conseguimos descobrir a verdadeira felicidade e melhorar muito a qualidade da nossa vida.  

Para o autor, o segredo está em encontrar uma atividade que seja um fim nela mesmo, ou seja, uma atividade autotélica. 

Isso quer dizer, que o propósito da ação é a ação em si, e não o seu resultado.

O que me lembra o que Viktor Frankl, autor de Em busca de sentido, fala sobre o significado da vida que para ele reside em se ter claro o porquê se deve fazer algo.

Para ele, quando o homem se esquece de si mesmo entregando-se a uma causa ou amando alguém, mais humano ele é. 

A autorrealização é um efeito colateral da autotranscendência.

E ele ainda completa dizendo que o sentido da vida sempre muda e que um certo nível de tensão é necessária na vida do indivíduo para que exista significado no seu dia.

Eu acho esses dois conceitos mais razoáveis e mais próximos do que os centenários entendem como propósito.

O propósito da vida é a vida em si. O sentido da vida é ela mesma.

O dia-dia é que faz a vida ter propósito.

Não tem essa romantização excessiva sobre o destino que vão chegar, porque eles estão concentrados em levantar da cama todo dia e fazer o que deve ser feito.

Eles também sabem que inevitavelmente vai existir correção do percurso enquanto eles estão vivendo. E que é justamente essa tensão que vai lembrar o sentido do porque continuam acordando todos os dias. 

Acho que a maior sabedoria que não percebemos ao tentar aprender algo com eles é justamente viver o hoje da melhor forma possível, sem esperar que o amanhã seja o que a gente realmente queria ou esperava.

O motivo de acordar todo dia e viver o dia, é simplesmente acordar e viver da melhor forma possível, baseado nos valores de comunidade e família que eles tem.

Grandes conquistas são reuniões de pequenos passos diários.

Portanto, faça as pequenas perguntas diárias:

Hoje eu fui um pouco melhor do que ontem?

Comi frutas e vegetais?

Dei atenção a mim mesmo e a quem amo?

Ajudei alguém?

Acredite, para chegar a longevidade possível, você vai ter que fazer micro coisas, diariamente, até lá.

Portanto, escolha algo que goste, faça com amor, faça por fazer, aproveite enquanto faz. O resultado não é garantido, não espere para ser feliz quando ele vier. 

Não espere amor do seu trabalho. Não espere sua vida ter sentido quando você alcançar o que você quer. Encontre propósito na busca.

 

Com o episódio de hoje eu encerro os problemas fundamentais que encontrei e que nos deixam bem longe de replicar os hábitos dos centenários saudáveis: são eles:

o contexto

os parceiros de jornada

o propósito de vida

 

A partir da semana que vem eu vou falar sobre os hábitos deles e vamos começar a viver como velhos hoje mesmo! 

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