Para descobrir quanto é suficiente para você, vou te contar sobre alguns dos hábitos dos centenários lúcidos e saudáveis das Blue Zones.
*Este texto faz parte da terceira temporada do meu podcast Bocadinho. Você pode ouvir ele clicando abaixo.
Listen to “T03E08 -Suficiente. O segredo dos centenários” on Spreaker.Os hábitos dos centenários
Quando comecei a escrever sobre minha experiência na Blue Zone italiana da Sardegna e falar sobre uma longevidade possível, não imaginei que ao ir um pouco mais fundo na reflexão eu ia me deparar com aspectos sutis que estão por trás dos hábitos das pessoas mais longevas e saudáveis do mundo.
Comentei com você no início dessa temporada que passar 1 semana conversando com eles, com seu médico, visitando sítios arqueológicos e comendo a comida deles, foi algo extremamente profundo… mas foi só quando sentei para escrever sobre os hábitos dele, colocando em contraste com nosso estilo de vida atual que algumas coisas foram ficando mais claras pra mim…
Foram encontrados oito hábitos em comuns nas 5 Blue Zones, a maioria destes hábitos são mais sobre valores e estilo de vida, como dar prioridade a quem se ama, ter um propósito de vida, desacelerar, fazer parte de uma tribo e alimentar-se a base de vegetais.
Hoje, vou falar dos três últimos hábitos que ainda não falei para refletirmos sobre um ponto importante para quem busca uma longevidade saudável possível…
Os hábitos são:
- Mover-se naturalmente,
- A regra dos 80% ao comer
- Beber vinho às 17h.
As pessoas mais longevas do mundo não passaram a vida levantando peso, correndo maratonas ou frequentando academias.
Em vez disso, elas moram em ambientes em que são estimuladas a estarem em movimento sem ao menos ter que pensar nisso. Por exemplo, cuidando da casa, do jardim, subindo escadas e indo a pé até os lugares que precisam ir.
Já a regra dos 80% ao comer se refere ao fato de que os habitantes das Blue Zones param de comer quando seus estômagos estão 80% cheios e que normalmente fazem sua menor refeição do dia no fim da tarde ou início da noite e depois não comem mais nada até dormir.
O terceiro hábito, é o do vinho às 17h.
Diz que o segredo é beber 1 a 2 taças por dia com amigos, família e com comida. A pouca quantidade da bebida, mesmo que frequente e a parte social é o que faz a maior diferença.

Refletindo sobre esses três hábitos eu percebi que eles tem uma coisa em comum: a noção de suficiente.
E é sobre essa palavra que ora é substantivo ora é adjetivo, que vou falar no episódio de hoje do Bocadinho
Um conceito sobre suficiente que me marcou
Lembro até hoje a primeira vez que ouvi um conceito sobre suficiente que me fez pensar muito.. foi em 2016 em uma das aulas do curso de Nutrição Integrativa que fiz.
A aula da vez era com Geneen Roth, uma autora americana que fala sobre distúrbios alimentares… você pode pensar que ela estava falando sobre a relação dela com a comida quando apresentou seu conceito de suficiente, mas acredite ou não ela estava falando sobre investimentos.
Ela contou sua história de perder todas as economias que ela e o marido juntaram por anos no escândalo de fraude de Bernie Madoff em 2008. Madoff era um investidor que até ser descoberto como golpista tinha uma ótima reputação no mercado. O escândalo foi um dos maiores da história, ele roubou muito dinheiro em um esquema de pirâmide financeira.
Na ocasião da aula, Geneen disse que em questão de minutos tudo o que ela tinha guardado durante sua vida desapareceu, inclusive sua casa. Como num truque de mágica, tudo simplesmente sumiu e ela ficou realmente sem nada além das roupas e utensílios pessoais.
Como faz muitos anos que assisti esta aula, recorri ao site dela para ler para você algumas das lições que ela dividiu depois do episódio:
“Repetidamente, eu me perguntei: por que não assegurei o mais básico de todas as coisas – o próprio abrigo. Por que não paguei minha hipoteca? E se não me culpar, vejo a resposta com clareza: porque acreditava mais em outra coisa. Eu acreditava em acumular. E quando você acredita em acumular, você vê o que você não tem, não o que você tem. Você perde o contato com o que você valoriza mais do que dinheiro.
A verdade é que minha relação com o dinheiro não era diferente da minha relação com a comida, com o amor, com suéteres fabulosos: nunca me senti como se tivesse o suficiente. Eu estava sempre focada na mordida que ainda estava por vir, não a da minha boca. Eu estava focada em como meu marido não era perfeito, e não no jeito que ele era. E no suéter que vi na vitrine, não aquele no meu armário que eu não usava há um ano.”
Vamos ver agora um pouco do outro lado dessa história? O do Madoff.
Ele foi presidente de uma das mais importantes sociedades de investimentos de Wall Street que leva seu nome e foi fundada em 1960. Ele estava no mercado há 48 anos, já tinha faturado muitos milhões de dólares mas não achava que era o suficiente. E foi assim que, depois de fraudar mais de 65 bilhões de dólares, ele acabou indo para a cadeia em 2008. Lugar que está até hoje, aos 82 anos.
A mesma história, dois lados diferentes, ligadas pela mesma palavra: suficiente.
O conceito que Geneen disse naquela aula em 2016 e que me marcou, é que suficiente não é uma quantia e sim um relacionamento com o que você já tem.
Isso pra mim fez todo sentido. Se não estivermos totalmente conectados com o que temos hoje, com quem somos hoje, com o que estamos fazendo hoje, nunca teremos o suficiente e sempre estaremos buscando mais.
Como fazemos uma coisa, é como fazemos todas as coisas
Como eu sempre digo, como fazemos uma coisa é como fazemos todas as coisas. Não tem como você ser uma pessoa com ótimo controle da sua alimentação e ser totalmente descontrolado com seus gastos e vice-versa.
A forma como agimos e como nos comportamos está intimamente ligada com o que acreditamos sobre nós mesmos, lembra que falei sobre isso no episódio sobre a lacuna dos hábitos?
E é por isso que normalmente fazemos tudo da mesma forma. Com pressa, sem paciência para esperar, querendo sempre mais e olhando lá na frente, incapaz de perceber o que já está aqui.
Por trás dos hábitos dos centenários que saímos repetindo e tentando imitar existe uma sabedoria que é o que mais faz diferença. Essa sabedoria é a noção de suficiente.
Essa noção pode estar sim relacionada ao fato que o contexto em que eles passaram boa parte de suas vidas era um ambiente de escassez e poucas possibilidades, o que talvez tenha feito com que seus hábitos tenham se baseado em noções de suficiente diferentes das nossas.
O que pode explicar o porque para nós talvez seja mais desafiador.
Um pulinho na Grécia antiga
Mas aí, lembro de Marcus Aurélio e outros estoicistas que, lá na Grécia antiga, mesmo tendo acesso a bastante para sua época, se disciplinaram com noções de suficiente para não se perderem em vaidades, gula, prazeres e preguiça. Eles tinham uma filosofia de vida, e seguiam ela para manter um norte.
Ou seja, viviam os seus valores.
Para nós, hoje em dia, para conseguirmos comer até 80% da nossa capacidade temos que estar presentes na hora da refeição, se não não vamos nem notar que já comemos o suficiente.
Para se mover naturalmente você precisa se relacionar com seu corpo pelo que ele é, não pelo que ele poderia ser. Respeitar seu ritmo, seu biotipo, sua saúde e manter-se ativo de forma constante. Sem esforço demais nem de menos. O esforço suficiente pra você, pra sua realidade, sua idade, seu estilo de vida.
Para poder beber 1 ou 2 taças de vinho com amigos e família às 17h você precisa sair do trabalho na hora, dar prioridade a quem você ama e fazer com que o vinho seja um coadjuvante da situação, não a muleta para te ajudar a terminar o dia manco que teve.
Mas, quando paramos para perceber nosso dia-dia, quem está conseguindo ver esse suficiente? A maioria de nós está ainda na busca, a busca constante.
Disciplina é importante para o seu suficiente
No início do ano eu fiz uma série de exercícios para aumentar minha disciplina, e um deles era sobre comer muito devagar, servir apenas metade do que normalmente me sirvo e comer com a outra mão. Tudo isso era para que, diminuindo a velocidade da refeição, eu conseguisse reparar quando estava realmente satisfeita.
Nos primeiros dias foi mais difícil, porque estava já habituada a me servir de uma certa quantidade e comer tudo. Automático mesmo, o nosso querido hábito.
Mas, permaneci no exercício, me concentrando… uns dias passaram e eu fiquei chocada! Você não tem ideia de quão pouco eu precisava comer para estar satisfeita.
E o que mais me impressionou foi ver que eu tinha total capacidade de parar de comer mesmo a comida estando muito gostosa. Esse exercício me deu uma sensação de autocontrole tão grande que lembro que enquanto estava fazendo isso todo o resto fluiu muito melhor.
Conseguia cumprir com todos os compromissos e tarefas que me comprometi, fiquei mais focada ainda na minha rotina de exercícios físicos, terminei um curso que estava inacabado há mais de um ano… foi realmente impressionante.
Mas, não consegui manter. Logo depois disso começou a quarentena e foquei em manter outros pratinhos rodando sem cair. Mas sempre lembro de como me senti e digo pra mim mesma que tá na hora de retomar essa consciência.
O que quero trazer ao te contar essa história é que nós estamos em um relacionamento muito esquisito com o suficiente.
A gente fica louco atrás dele, e ele cada vez mais longe. A gente faz cada vez mais, e ele nunca chega.
Mas, como você já deve ter ouvido, a única coisa em comum nos relacionamentos que você já teve ou tem e que não dão ou deram certo é você, então, o problema tá contigo mesmo nesse relacionamento com o suficiente.
A ganância entra na conta
E aí, não temos como falar de suficiente sem falar de ganância.
Ganância é um desejo excessivo pelo material, é querer sempre mais. Não só mais dinheiro, é mais tudo: comida, prazer, experiências, prestígio, reconhecimento.
E nessa a gente acumula. Acumula para muitas vezes nem usar, porque o legal do negócio é acumular, não aproveitar.

Como Geneen disse: quando você acredita em acumular, você vê o que você não tem, não o que você tem. Você perde o contato com o que você valoriza mais do que dinheiro.
E é assim que você pode já ter dinheiro suficiente, fama suficiente, roupa suficiente, mas está sempre olhando como ganhar mais, aparecer mais e comprar mais.
É assim que você pode estar totalmente satisfeito, mas continua comendo. Assim que você pode ter dinheiro suficiente, mas continua acumulando só para ver mais dinheiro na conta. Assim que ficamos ansiosos porque precisamos sempre mais e não paramos para pensar que uma hora o que temos agora pode simplesmente sumir e a gente ver que sim, a gente tinha o suficiente.
E tudo isso acontece porque você simplesmente não faz ideia do que é suficiente pra você.
E aí você vive em excessos e pode chegar a extremos como aconteceu com a Geneen, que percebeu que a ideia de nunca ter suficiente dinheiro estava totalmente ligada com a fome que ela se fazia passar. Ela chegou ao extremo do extremo, e quase cometeu suicidio porque não aguentava mais sofrer com essa eterna insatisfação por algo que nunca chegaria. Se você já está literalmente pele e osso e não consegue mais ficar em pé e ainda assim olha no espelho e não enxerga como está, o que vai ser suficiente?
Ou como Mardoff que já era famoso, reconhecido e milionário, mas queria mais e assim prejudicou milhares de pessoas. Sinceramente, quem já tem centenas de milhões de dólares, precisa ter bilhões para quê? Um dinheiro que ele não conseguiria gastar sozinho, nem com a família, e que ironicamente tirou a liberdade dele.
Histórias como as deles não são raras, infelizmente. Mas, como Morgan Housel, autor do livro The Psychology of Money disse sobre suficiente:
Não há razão em arriscar o que você tem e precisa pelo que você não tem e não precisa.
Ou seja, quando você tira o foco do caminho para olhar só no resultado, você acaba tomando decisões que podem por tudo o que você já tem em risco pelo simples fato de que você quer algo que não tem e que talvez nem precise.
A forma como vivemos em sociedade também afeta o seu suficiente
Tem um outro ponto que acho importante de levantar nessa reflexão sobre suficiente que é como a sociedade mudou nas últimas décadas.
Antigamente a vida se dividia em três fases: uma que ia até uns 25 anos que era quando nos dedicavamos aos estudos e a nossa formação, a segunda era a fase adulta, produtiva, em que nós trabalhávamos durante anos e guardávamos dinheiro para na terceira fase, ali pelos 55-60, nos aposentarmos para a aproveitarmos os últimos anos de vida usufruindo do dinheiro que fizemos e juntamos.
Mas, eu não sei se você sabe, que esse modelinho de vida foi desenhado em uma época que a expectativa de vida não ia muito além dos 60. Então, boa parte deste dinheiro acumulado durante a vida nem chegava a ser aproveitado por quem acumulou.
Ou seja, na hora de aproveitar e curtir, já era tarde. Você não já tinha mais tempo, saúde e disposição.
Nas últimas décadas a expectativa de vida aumentou muito e hoje viver até os 70-75 anos é algo comum na maior parte dos países, alguns inclusive já estão com taxas mais altas.
Mas, muitos de nós ainda tem esse modelo de vida na cabeça: primeiro estuda, depois trabalha bastante, depois para e curte a vida.
Só que você já parou para pensar o que você vai fazer se se aposentar aos 55-60 anos e for morrer só com 75, 80 quem sabe 90 anos?
Se você acelerar demais nos primeiros 40-50 anos da sua vida, será que você vai ter força, saúde, energia e companhia para os próximos 30, 40?
Por isso que muitos sociólogos, historiadores e pesquisadores hoje falam da necessidade de viver essas três fases a vida inteira, ou seja, a formação, trabalho e descanso devem fazer parte da vida de todos o tempo todo.
Yuval Harari no livro 21 lições para o século 21 fala justamente sobre isso, sobre a necessidade da constante formação, estudo, trabalho e lazer.
Nos tempos que vivemos já não podemos acreditar que bateu 55-60 anos seremos idosos aposentados. Assim como não podemos estudar até os 25 anos e parar ali.
E isso, pra mim, muda totalmente a concepção de suficiente.
Se você tem a vida inteira para estudar, trabalhar e curtir, porque você vai exagerar no esforço delas em uma única fase?
Por que você vai focar no acúmulo a qualquer custo de qualquer coisa se você vai ter muitos anos para aprender, errar, tentar, desistir e tentar de novo?
Por isso, é preciso regular a velocidade pq vamos ficar mais tempo.
Talvez os centenários das Blue Zones estão lá justamente porque não estavam com pressa e porque 80%, mover-se naturalmente e tomar 1 ou 2 taças de vinho com boa companhia já era suficiente.
Não precisava de crossfit, jejum intermitente e open bar.
Como ter suficiente?
Você pode estar pensando “mas, Flavia, se eu pensar assim eu vou ser um acomodado… como ter ambição pensando desse jeito? Se conformando com pouco””
Olha, eu entendo.. pra mim mesmo essas ideias de desacelerar um pouco para lembrar que ainda tem muito chão pela frente às vezes me cai como se eu estivesse sendo pouco ambiciosa ou até acomodada. Não dar 100% realmente pode parecer errado.
Mas, para mim, ao ter plena consciência de que você deve estar em constante formação, estudando sempre, produzindo e trabalhando, e achando tempo para curtir, relaxar e aproveitar, faz com que você tenha uma visão do seu papel no mundo muito mais ampla e sadia.
Você vai entender que quando você tem 25 anos você vai entregar e saber menos do que quando tiver 35, 45, 55, 65 e assim por diante.
As três fases da vida se misturam e hoje em dia é a vida toda.
A cada fase da sua vida você vai ser sua melhor versão, porque estará comprometido com a sua evolução e com a melhoria do seu ambiente, que consequentemente vai afetar o ambiente ao seu redor.
Mais uma vez, o foco deve ser no caminho, não no destino.
E vou te dizer.. sempre que eu estou na dúvida se estou fazendo o certo, sempre que desanimo porque o resultado do meu trabalho não é proporcional ao enorme esforço e dedicação que coloco nele, eu olho para pessoas e profissionais que eu admiro e lembro que nenhum deles tem menos de 10-15 anos no mercado em que eles se destacam.
Lembro que nenhum deles foi sucesso meteórico. Lembro também que nenhum deles desistiu.. mas que provavelmente outras pessoas muito incríveis desistiram no caminho e por isso eu nem cheguei a conhecer suas histórias.
E lembro ainda que existe uma diferença muito grande em ficar rico e se manter rico.
Em ficar magro e se manter magro.
Em ficar feliz e ser feliz.
E eu diria que a diferença entre ele tem a ver com a sua relação com o suficiente e como você enxerga a sua vida.
Quem vive sem ter uma breve ideia do que estou falando aqui, dessa vida longa que temos, vai se desgastar para chegar rápido, mas provavelmente não vai ter consistência para se manter onde chegou.

