A arrogância sutil no dia-dia é o último episódio da segunda temporada do Podcast Bocadinho.
A temporada toda foi sobre auto desenvolvimento e autoconhecimento.
Ouça o episódio completo abaixo:
Listen to “T02E12 – A arrogância sutil no dia-dia” on Spreaker.O amor é a única maneira de entender outro ser humano em sua mais interna essência e personalidade. Ninguém pode ficar ciente da essência de outro ser humano a não ser que o ame. É através do amor que ele consegue perceber traços e características da pessoa amada e enxergar o seu potencial.
Viktor Frankl
Quem escreveu isso foi Viktor Frankl em seu livro Em busca de sentido, quando explica quais são as formas de encontrar sentido para a vida.
Para Frankl, uma das formas de dar sentido a vida é amar alguém. A partir do seu amor, a pessoa amada se sente capaz e a vontade para ser quem é. E eu concordo absolutamente com ele.
Quer dizer.. eu fui um bocadinho ousada ao mudar um pouquinho o personagem foco do amor que Frankl diz. Nesse livro dele, que por sinal é fantástico e aconselho muito a leitura, quando ele fala sobre o amor, ele fala em amar alguém, dedicar seu amor a outra pessoa.
Mas, você sabe que nessa temporada o foco é você. Então, esse amor que traz sentido a vida, pra mim, tem que começar em você.
Você, você e você
Não que amar outros não seja importante e essencial, com certeza é.
Mas não se fazendo isso você se coloca em segundo plano.
Não se fazendo isso você espera qualquer coisa em troca.
Depois de 11 episódios, acho que o que mais quero falar pra você é: não cobre nada do outro que você mesmo ainda não consiga ou não faça.
Nada mesmo. Não importa quem seja. Não importa se a pessoa tem mais poder que você, se a pessoa é mais conhecida que você, se a pessoa tem mais dinheiro que você.
Ninguém deve ou precisa fazer algo que você acha que deve ser feito.
Não cobre disciplina do seu filho se você mesmo não tem.
Não cobre saúde do seu médico se você não faz o mínimo por você, que é se tratar com amor e respeito suficiente para não fazer o que você sabe que não é saudável.
Não cobre da indústria informações claras e honestas se você não é claro e honesto com você.
Não cobre justiça de Deus se você mesmo não é justo com você.
Não cobre assistência a quem tem mais que você se você não doa o que você tem, seja tempo, amor, atenção ou dinheiro.
Não justifique nada da sua vida olhando pro lado.
Não fique esperando os outros resolverem seus problemas.
Chega de terceirização
Sabe aquele papo clássico de pais separados? Que a mãe diz que o problema do filho é que o pai estraga quando pega no fim de semana. E o pai diz que o problema do filho é que a mãe não faz o que devia?
Então, o problema é que o pai terceiriza a culpa pra mãe e a mãe terceiriza a culpa pro pai.
Um joga pro outro a responsabilidade e ninguém resolve nada.
Na história os dois reclamam, os dois estão insatisfeitos e ninguém faz nada de fato.
Peguei um exemplo básico, um exemplo qualquer. O ponto é, troque os personagens da história e você vê a história da maioria dos problemas que as pessoas tem.
Olha uns exemplos do que ja ouvi:
A indústria farmacêutica é indústria da doença. Não quer ajudar na cura, quer só apaziguar sintomas. Diz a pessoa que não cozinha sua própria comida, não faz tempo para descansar, quase nunca anda a pé ou sobe uma escada, vive estressada e bebe regularmente.
A mídia é manipuladora. Mostra sempre as mesmas pessoas, a mesma história, só desgraça. Diz a pessoa que não desliga a TV pra buscar conhecimento e informação em outras fontes.
Os padrões estéticos estão cada vez mais difíceis de serem atingidos, você não pode mais ser quem você é, não pode mais envelhecer, tem que estar sempre com cabelo e maquiagem perfeitos. Diz a pessoa que dá uma dica de amiga para a blogueira que nunca viu na vida e que, segundo ela, precisa cuidar melhor da pele porque tá com cara de velha.
Você está entendendo o meu ponto?
Como que a gente tem coragem de cobrar algo de alguém se a gente não tem a capacidade de fazer?
As habilidades pro autoconhecimento
Nos episódios dessa temporada eu falei de valores, de limites, de auto responsabilidade, auto estima, amor próprio, empatia e disciplina. 6 pontos, 6 fatores, 6 características, 6 habilidades que se você não tem uma boa desenvoltura em cada um deles, você não deveria falar um ai de ninguém.
E aí, chego no último ponto que queria abordar nessa temporada do Bocadinho: uma outra característica que acho fundamental para seu auto desenvolvimento que é a humildade.
Humildade de saber que você não é nada demais. Você não é excepcional. Você não vai salvar o mundo.
Na verdade, quem sabe, com muita humildade, auto responsabilidade, amor próprio, auto estima, empatia, disciplina e limites, você consiga salvar a si mesmo sem colocar essa carga em outra pessoa.
Arrogância sutil no dia-dia
A gente vive uma arrogância sutil extremamente tóxica. Arrogância sutil é pra mim uma atitude muito comum e presente em todos nós, em diferentes momentos, aspectos e circunstâncias.
Nem reparamos, mas nós achamos que sabemos mais, que merecemos mais, que temos mais. Nós achamos que nós vamos resolver, que nosso jeito é o jeito certo.
A gente dá uma sugestão ou opinião não solicitada porque no fundo a gente acha que sabe mais e melhor do que a pessoa em questão.
A gente tira sarro do gosto musical, da roupa ou aparência de alguém porque achamos que o nosso é melhor e mais bonito.
A arrogância é sutil e vai até o ponto de acharmos que o mundo não é justo como é.
Nós, seres minúsculos e insignificantes no universo, temos a audácia de olhar para a realidade que nos cerca e falar “não é justo. não devia ser assim”.
Sério? Sério mesmo que a gente que fica aqui nesse mundo por 50, 60, 70, com muita sorte e genética boa, 100 anos, acha que temos conhecimento suficiente para olhar ao redor e falar “tá errado?”. Um mundo que, querendo ou não, tá se virando sem a gente há milhões de anos?
Sim, eu sei que olhando de maneira geral o mundo parece injusto.
Nós vivemos uma desigualdade social, econômica e intelectual absurdas. Não só dentro do nosso país, mas no mundo.
E não estou falando que a solução é fingir não ver ou tentar não ser afetado por isso.
Pelo contrário!
A injustiça, a desigualdade, o desamor e desrespeito cortam meu coração e me fazem questionar muito porque e como eu tenho tanto mais que outros.
Mas sabe o que acontece quando eu entro nessa? Eu fico questionando e acabo não fazendo nada de fato. Se fico muito tempo em contato com isso, principalmente em notícias ou programas de TV, eu entro numa tristeza e desesperança que me deixa sem energia e ação.
Sensibilidade sim, desolamento não
Eu sou uma pessoa extremamente sensível, sensível de chorar ao ver pessoas na rua desabrigadas. Sensível ao ponto de chorar vendo jornal e de ficar mal por dias quando assisto filmes que mostram violência e sofrimento.
Lembro como eu me senti ao visitar Soweto, na Africa do Sul, o bairro símbolo do Apartheid em Johanesburgo e ouvir a história do nosso guia que nasceu no ano em que o Apartheid foi extinto.
Eu chorava na van de turismo enquanto ouvia ele e passeávamos pelas ruas com um mix de sentimentos de “que absurdo eu estar aqui assistindo tudo isso como se fosse um show” e ao mesmo tempo pensando “que loucura pensar que meu interesse e dinheiro como turista branca de certa forma ajuda a economia deles”.
Lembro também como eu me senti ao visitar o Campo Limpo, uma comunidade perto do bairro do Morumbi em São Paulo. Fui fazer uma visita a um projeto social chamado Agencia Solano, que tinha conhecido algumas semanas antes em um evento.
Ao entrar nas ruelinhas e ver a realidade que aquelas pessoas vivem, as escolas que as crianças estudam, a pouca higiene e saneamento com que eles estão acostumados, eu só pensava em como tudo aquilo afeta o valor que eles dão a si mesmos e como enxergam a vida. Penso em como eles estão nessa pandemia, como a minha realidade é tão diferente da deles.
Isso sem contar as centenas de mensagens semanais que recebo nas minhas redes sociais, e-mail e site com pedidos de auxílio ou desabafos relacionados a saúde, hábitos e alimentação. Pessoas que descobrem doenças diariamente, pessoas que me mandam e-mails implorando minha ajuda porque não aguentam mais sentir dores, pessoas que mandam mensagem contando sobre relacionamento abusivos, transtornos alimentares, falta de amor com seu próprio corpo e imagem e que me pedem ajuda, atenção, palavras de incentivo ou indicações.
No início eu passava dias chorando ao ler as mensagens. Dias chorando. Sem brincadeira.
Sofrer todos vamos
Você que está me ouvindo talvez não saiba que construí minha carreira e empresa a partir do meu sofrimento, da minha falta de saúde, das rasteiras que levei na vida, dos sofrimentos que passei, das besteiras que fiz.
Não desejo o que passei para ninguém e adoraria ter o poder de evitar que os outros sofressem.
Mas eu sei que o mundo não é como eu gostaria (como meu irmão disse uma vez, cheio de nenéns fofinhos e filhotes que nunca crescem), então o que eu sinto que posso fazer pelo outro, eu faço.
Seja doar e dividir meu tempo, meu dinheiro, minha atenção, meu carinho ou meu conhecimento.
Pra mim, vir aqui e falar com você sobre seu poder, sua autoestima, sua auto responsabilidade, seus valores, suas prioridades e sua disciplina, é minha forma de transformar o que eu vivi em algo útil para outras pessoas.
Frankl, o autor que citei no início do episódio, diz que quando você consegue encontrar propósito no sofrimento, ele deixa de ser sofrimento.
E eu concordo com ele.. não só concordo, como fico feliz que eu não tenho o poder de evitar o sofrimento do mundo.
Sem sofrimento, sem dificuldade, como iríamos evoluir? Como iríamos melhorar?
Transformação
Os momentos da vida transformadores tem uma dica de como começam justamente na palavra: transformador.
Transformar a dor. Achar sentido, buscar propósito, buscar melhoria. Olhar a dificuldade como uma oportunidade de crescer, de mudar, de resolver.
Se tem uma verdade nessa vida é que o sofrimento é inevitável. Em diferentes níveis, momentos ou circunstâncias, o sofrimento sempre vai existir e não tem como fugir dele. Então, o que é possível fazer?
Se você ficar onde está, com medo do que pode encontrar, do que pode acontecer, dificilmente você vai ser melhor, vai entregar mais valor, vai ser mais útil pro mundo.
Mesmo se hoje você estiver ganhando nesse cenário, há chances de você não estar crescendo.
E é por isso que a minha decisão frente ao sofrimento inevitável que todos passamos e as diferenças que fazem parte do mundo que vivemos foi ajudar como posso.
É por isso que eu preciso me desenvolver, eu preciso gerar o meu valor interno. Preciso me conhecer, me amar, cuidar de mim, me respeitar.
Preciso definir meus limites e agir de acordo com eles.
Assim que eu vou mostrar ao mundo e às pessoas ao meu redor como eu estou acostumada a ser tratada e como eu vou tratar os outros.
Quando ouvia os clichês sobre amor próprio, autoconhecimento eu achava tão distante. Achava romântico demais. Na minha ignorância emocional, eu achava simples demais que a resposta estaria no amor.
Mas hoje eu entendo, essa parte bonita e que para quem vê de fora parece romântico e até utópico do se amar em primeiro lugar, de confiar em si mesmo, de se conhecer tão bem que dificilmente se machuca, tem um preço altíssimo.
Coragem
Ir a fundo em você mesmo requer coragem para olhar o feio no olho por tempo suficiente para perceber que é só uma parte pequena que negamos por tanto tempo. Ter coragem de chamar esses sentimentos para bater um papo e ouvir o que eles têm a dizer.
Ter coragem de questionar porque que tem tanto nos outros que te incomoda e humildade de aceitar que o problema é seu, não deles.
A mensagem que deixo aqui é: gere seu valor interno antes de querer entregar ou, pior ainda, cobrar valor do mundo.
Antes de querer resolver o problema dos outros, resolva os seus.
Antes de ouvir o que os outros tem a dizer, ouça o que você e seu corpo tem dito há anos.
Depois, olhe ao seu redor com carinho.
Ouça o que as pessoas tem a dizer. Não dê a sua opinião quando não pedirem. Não importa onde você estudou, quais livros você leu, com quem você cresceu ou de qual barriga você saiu.
Seja humilde e ouça.
Depois, só depois de ouvir de verdade, veja como você pode acrescentar. Você pode doar dinheiro, tempo, conhecimento, atenção?
Mas lembre, comece primeiro com você.
Se necessário volte ao episódio 1.. ouça a temporada mais uma vez. Relembre dos passos, faça os exercicios.
Faça o seu melhor, olhe pro seu caminho, dê tempo e espaço às coisas, mas principalmente a você.
Cuide-se com carinho e respeito.
Procure a leveza e o silêncio de tempos em tempos
Com carinho, eu encerro essa temporada com um lembrete de que para conseguir subir, tem que ser leve. Se desfaça do peso que tem carregado sem motivo. Se não souber por onde começar, lembre que o amor estende a mão e ajuda a trazer leveza.
No silêncio a gente consegue ouvir melhor, então aproveite um momentinho com você mesmo agora… eu já volto pra me despedir.
Muito obrigada pela audiência e carinho nessa segunda temporada do Bocadinho. Fico muito feliz em ler as mensagens que me mandam e muito agradecido pelas indicações.
Aproveito para agradecer a equipe da Tumpats, a minha produtora de áudio que fez um lindo trabalho para entregarmos Bocadinhos de qualidade.
Vem me dar um alô no instagram que é @flaviamachioni.
Me acompanhe por lá que assim que tiver notícias e data para mais uma temporada eu avisarei!
Um beijo,

