Porque você precisa trabalhar a sua autoestima faz parte da segunda temporada do Podcast Bocadinho.
Ouça o episódio completo abaixo:
Listen to “T02E10 – Por que você precisa trabalhar a sua autoestima” on Spreaker.Muito além de se achar bonito
Ter autoestima forte pouco tem a ver com se achar bonito ou estar dentro de padrões de beleza ou sucesso.
Muitas vezes é justamente não estando nesse padrão que se tem autoestima, já que para ter ela é necessário não determinar seu valor pela opinião dos outros ou circunstâncias externas.
Na reflexão do episódio de hoje conto porque eu acredito que muitos dos que falam de autoestima e aceitação estão, na verdade, correndo atrás do próprio rabo e porque alguns discursos de gênero só levantam poeira e não resolvem a questão de fato.
Depois de alguns episódios falando sobre nossa autoimagem, corpo e padrões, hoje eu quero falar sobre autoestima.
Estava eu relendo um livro que gosto muito quando me veio um insight sobre o porque gostaria de falar sobre o assunto,e principalmente, a forma que eu quero trazer essa reflexão para você, querido ouvinte.
Essa temporada do Bocadinho eu estou focando no auto desenvolvimento.
Nos últimos nove episódios falei sobre pontos que considero importantes nessa caminhada do aperfeiçoamento que essencialmente faz com que nossos dias se tornem mais leves e assim a gente consiga ser mais saudável e feliz, que é o meu verdadeiro objetivo com meu trabalho.
Nos episódios em que falei de autoimagem, padrões e empatia, achei que faltou um conceito fundamental para fechar esse tópico, que é a autoestima.
O que é autoestima
Para mim uma coisa fundamental para começar a entender ou trabalhar algum conceito é primeiro defini-lo. Assim, a definição de autoestima que usarei para essa reflexão de hoje é um misto de alguns autores que li nos últimos anos.
Para sintetizar, cito um trecho do livro Imersão do psiquiatra e pesquisador Diogo Lara que já foi meu convidado aqui no Bocadinho:
A base da autoestima está no “auto”: é o que pensamos sobre nós mesmos; é a possibilidade de nos legitimarmos, cientes das nossas limitações e das nossas imperfeições.
O presente mais valioso que só nós podemos nos dar é genuinamente reconhecer nosso próprio valor. Ao contrário do senso comum, o essencial não está na noção de se sentir especial ou acima da média, ou até mesmo de ser especial ou acima da média.
Quem tem a autoestima sadia não precisa ser mais do que outros nem precisa provar seu valor. Sente-se bem consigo mesmo, o que é suficiente. A alegria está em ser quem se é, e isso basta para estar essencialmente satisfeito com a vida. A felicidade dessa pessoa não é pautada pelas circunstâncias do cotidiano nem pela opinião dos outros. Tampouco é definida pelos resultados das suas ações, e sim pela maneira como se envolve nas atividades que fazem parte do seu dia a dia.
Para mim, a maior parte das pessoas quando falam hoje em dia sobre autoestima ou quando pensam estar trabalhando a sua, estão correndo atrás do próprio rabo.
Parece autoestima, mas não é
Nessa turma não entram só as pessoas que estão na busca estética incansável e muitas vezes prejudicial, mas também as que resolveram que não queriam mais se depilar, fazer a unha, usar maquiagem, fazer intervenções esteticas ou cirurgica. Essa maioria, que envolve os dois lados, ou quantos existirem, para mim estão correndo atrás do próprio rabo porque depois de fazerem suas escolhas ficam militando para outras pessoas não só aceitarem a decisão delas, mas para que entrem no coro e ajudem a fazer com que todo mundo aceite, entenda e diga que acha bonito, legal ou certo suas decisões.
Percebe que é uma atitude que o indíviduo faz mas que espera, precisa e até impõe que os outros aceitem?
Percebe que é uma ideia de aceitação que não é baseada no seu próprio bem-estar e conforto em estar na sua pele, mas sim no bem-estar e conforto que o outro vai trazer ao aceitar, apoiar e achar bela a sua decisão/aparência/estilo/profissão e o que mais seja que você optou fazer para tentar ficar confortável sendo quem você é?
Pra mim, correm atrás do próprio rabo porque é uma autoestima baseada na validação das suas escolhas pelo outro.
Veja se já aconteceu algo assim com você:
Você vai no shopping, passa na frente de uma vitrine e vê uma roupa linda, mas que você nunca achou que combinaria com você. Decide entrar e provar.
No provador você olha no espelho e se sente linda ou lindo. O corte ficou legal, o tecido é gostoso, a cor não é o que você costuma usar, mas até que você ficou bem.
Aí, você lembra que tem o aniversário de um super amigo no fim de semana e resolve que vai levar.
Pensa que vai ser legal dar uma mudada… tanto aconteceu com você nos últimos tempos que, quem sabe, mudar um pouco o estilo não seja algo a se fazer?! Você dá um sorrisinho a si mesmo no espelho do provador, troca de roupa, paga o look novo e sai satisfeito da loja.
Chega o dia da festa, você se arruma, olha no espelho e confirma: tá demais!
Você chega na festa e sente que todo mundo olha pra você. Você sente um misto de vergonha, entusiasmo, nervosismo e alegria.
Começa a dar oi pros amigos, todo mundo percebendo que você está diferente. Alguns elogiam seu look.
Até que chega aquele amigo sempre debochado e fala “nossa, tá sem máquina de lavar em casa?” e você meio sem entender a ironia, fala “ahn? não.. pq?” e ele responde “teve que pegar roupa emprestada.. pq é obvio que isso não é seu, né?”
Nessa situação existem duas pessoas: a com pouca autoestima e a com boa autoestima.
Pouca ou boa autoestima
A primeira vai imediatamente se encolher. Os ombros vão se curvar, a cabeça ficar mais baixa, o sorriso vai diminuir e vai passar o resto da noite só pensando como foi ridículo achar que seria hora de fazer algo diferente e novo, porque é óbvio que você não deveria.
A segunda vai dar um sorriso amarelo, responder qualquer coisa e seguir sua noite. Vai continuar se sentindo linda ou lindo, vai continuar se sentindo bem, vai continuar gostando da roupa.
E aqui eu usei um exemplo bem simples, mas eu vou um pouco mais além..
Vou fazer um comparativo entre homem e mulher baseado no ponto que quero trazer aqui que é o resgate do poder da autoestima pelo individuo.
Já ouvi muito, e inclusive foi um dos temas que conversei com a Raquel no episodio sobre autoimagem, que mulher tem que estar sempre bem vestida, arrumada, etc.
Na ocasião ela inclusive fala sobre como é injusto termos que gastar tempo do dia se arrumando, passando maquiagem, escolhendo roupa e usando sapato de salto para trabalhar se não vão dizer que estamos mal arrumadas e somos desleixadas.
Injusto ou diferente?
Algumas pessoas vão além e dizem que esse tempo gasto com a aparência é um dos motivos que fazem as mulheres não crescerem tanto em suas profissões, pois comparando com os homens, eles não precisam gastar tanto tempo com isso como nós, e por esse motivo podem focar mais em seu crescimento profissional.
Esse é um dos argumentos que eu já ouvi de algumas pessoas e por muito tempo eu concordei. Pensei, injusto mesmo.
E sim, é bem possível que vão falar.
Mas aí, parei para refletir se esse falatório é algo que só acontece com mulher.
E não, isso não é só com mulher. Também falam de homem mal vestido e mal arrumado.
Eu tenho um amigo, muito bem sucedido, CEO de uma empresa milionária. Ele é uma das pessoas mais desleixadas e mal vestidas que eu conheci. Ele usa sempre camiseta preta, tem uma calça jeans, usa tênis de corrida no dia-dia, fica semanas sem fazer ou aparar a barba, meses sem cortar cabelo. Todo mundo fala que ele não se veste bem e tem aparência de descuidado.
Volta e meia vão falar que ele devia cortar o cabelo e aparar a barba. To-do mundo fica opinando, os sócios dele, família, amigos, namorada… sabe o que ele faz?
Nada… ele ignora.
Agora, se alguém falar ou questionar a influência dele, o poder que ele tem na empresa ou sua situação financeira, aí você vai ver ele abalado.
Ou seja, de maneira geral, a pressão que homens sentem é diferente da pressão que mulheres sentem.
Segundo: as pessoas falam, independente se é homem ou mulher.
Terceiro: a resolução da questão não é externa, é interna.
Resolver internamente costuma ser mais eficaz
Sinceramente acho que muito do discurso de a mulher que sofre porque tem a pressão de estar sempre maquiada, bem vestida e feliz, é repetição de um discurso que não cabe mais hoje em dia.
Assim como o discurso do homem ter que ser poderoso, influente e rico para ser bem visto, é repetição de discurso.
Não que essa pressão não exista…ela existe sim. Mas a imposição não é de fora pra dentro.
Isso está internalizada na gente. Está internalizada porque por muito tempo nós, e quando eu digo nós eu estou me referindo aos seres humanos, independente do gênero, aprendemos a olhar para fora para explicar ou legitimar o que sentimos dentro.
E aqui que tá o meu ponto: que autoestima é essa que fica baseada fora de si mesmo?
Que ideia é essa de que quando decidimos optar por um caminho a gente precisa convencer os outros ou saber que os outros apoiam ou acham bonito?
Pra mim, quando digo que as pessoas estão correndo atrás do próprio rabo é justamente porque acham que estão se aceitando e que estão em paz com suas decisões, mas na verdade estão pedindo para os outros aceitarem e gostarem delas com as decisões que elas tomaram.
Aí, quando os outros não aceitam, ficam ofendidas, se vitimizam, dizem que são opressores, superficiais, tóxicos.
Mas, a questão não é os outros gostarem. A questão não é os outros apoiarem, os outros acharem bonito, os outros elogiarem, os outros ajudarem a mostrar que seu lado ou decisão está certo.
A questão é você parar de esperar isso.
Autoestima é você fazer o que você quer ou precisa para ficar bem com você mesmo, independente se os outros reparam, apoiam, elogiam, gostam.
A ameaça constante a nossa autoestima
Como diz o psiquiatra David Hawkins, a auto-estima de todos é constantemente ameaçada por dentro e por fora. Se olharmos de perto a vida humana, veremos que é essencialmente uma longa e elaborada luta escapar aos nossos medos e expectativas interiores que foram projetados no mundo.
Como enxergamos o mundo é um reflexo de como enxergamos a nós mesmos. Nós projetamos o que sentimos no outro. O que mais incomoda no outro é o que mais incomoda na gente. O que a gente mais teme que aconteça é o que mais nos afeta quando alguém faz um comentário sobre.
Alguém com autoestima alta está satisfeito com quem é. É a pessoa que não se importa com o que o outro veste, compra, faz.
É a pessoa que pode estar usando uma peruca vermelha e azul, metade lisa e metade enrolada, que quando sair na rua e um conhecido encontrar e rolar aquela conversa de elevador falar um “nossa, o que aconteceu com seu cabelo?” a pessoa vai falar “é uma peruca, eu adoro” e independente se a pessoa falar “credo, que coisa mais ridicula” ou se falar “uau, quanto estilo! parabéns” o sujeito vai continuar seu dia independente.
Autoestima é você deixar sua perna sem depilar e não dar a mínima se os outros estão depilando. É saber que se alguém diz que não gosta de você porque você não usa maquiagem todo dia ou porque você usa seu dinheiro comprando creme redutor de celulite, a pessoa não merece meio segundo da sua atenção.
Porque se você permite que meçam o seu valor pela quantidade de pêlos que você tem no corpo, por onde você decide usar seu dinheiro ou pela quantidade de coisas que você tem, é porque você em primeiro lugar, mede seu valor assim.
Reforçar o seu valor interno
Entende o que estou trazendo aqui? Autoestima tem que estar focada no AUTO, do grego: próprio.
Pare de querer que o outro legitime o que você acha, está fazendo ou como esta aparentando. Foda-se o outro, amigo.
Uma das coisas mais práticas para a saúde emocional é reforçar a autoestima
Ter autoestima não garante felicidade, mas a sua falta está sempre ligada a algum grau de mal-estar e frustração.
O outro sempre vai achar algo pra falar de você. Assim como bem provavelmente você também sempre acha algo para criticar no outro.
O alívio da pessoa média é falar do outro. É isso que eles têm pra se sentirem superiores em sua vida sem sentido e levemente frustrada. Foi o que falei no episódio passado… quem está bem não usa seu tempo para falar dos outros, muito menos para falar coisas ruins ou maldosas.
Quanto antes você desencanar dessa aprovação externa, mais cedo sua autoestima fica forte. Mais cedo também você para de perpetuar esse hábito péssimo que é dar sua opinião quando ninguém pediu.
Já falei aqui nessa temporada outras vezes, não fique olhando pro lado para ver se está no caminho certo. Vai pra dentro de você, lá no fundo. Vai descobrir quem você é, o que você gosta, o que te importa, do que você não abre mão e pro que você nem liga.
Se por acaso você é ou conhece alguém que fica constantemente falando o que pode ou não pode em termos de estética, de estilo de roupa, estilo de vida, escolhas financeiras, profissionais, alimentares ou qualquer outra, talvez você seja ou esteja próximo de pessoas com baixo autoestima que fingem ter boa autoestima.
Autoestima não vem com arrogância
Uma boa autoestima é frequentemente confundida com confiança excessiva ou arrogância, que são características relacionadas à falta de autoestima honesta, não à sua abundância. Uma avaliação muito positiva e superficial de si mesmo está mais para autoengano do que para autoestima — e também cobra seu preço quando nos chocamos com a vida real.
Quanto mais você precisa provar um ponto, mais inseguro você está sobre ele.
Se você está confortável com suas escolhas, se você sabe quais são seus valores, o que você quer, o que é importante pra você, o que as outras pessoas fazem, pensam ou falam pouco impacta a sua vida.
Sim, eu acho muito válido e importante pessoas e iniciativas que promovem espaço para dialogos que ainda tem pouco espaço, mas eu sinceramente acho que os individuos que buscam nelas legitimização, estão esquecendo um ponto fundamental da mudança de comportamento: a ação.
Não tem nada nem ninguém que pode te salvar ou te derrubar além de você mesmo.
Buscar ajuda, auxílio, apoio, vozes para deixarem o seu coro mais alto, é sim fundamental. Mas isso não vai resolver nada se você não fizer algo de fato.
A gente não inspira ou convence o outro forçando eles a aceitarem, entenderem ou fazerem o que nós estamos fazendo. A gente inspira o outro quando ao estar bem e confortável com as decisões que tomamos, vivemos nossa vida com propósito e mostramos os nosso valores e nossa mensagem através de atitudes.
Fortaleça a si mesmo!
Atitudes falam mais alto que palavras. O discurso vazio de ação some no ar.
Ficar em um pedestalzinho apontando como os outros estão errados por não estarem te apoiando, aceitando, elogiando pela decisão que você tomou, é falta de autoestima.
Pior, ficar lá falando que quem está fazendo diferente ou o oposto de você está errado e não deveria ter espaço porque tira o seu, é vitimismo disfarçado de militância.
A minha mensagem aqui, como mulher, é: os padrões são difíceis de seguir sim. Mas a decisão de continuar sendo pressionada por eles é sua.
É chato ouvir comentários negativos sobre sua aparência e decisões? Sim, claro que é.
Mas a escolha de ficar paralizada, ofendida ou irritada com eles é sua.
A autoestima forte traz resiliência, força e maior capacidade de regeneração. As pauladas da vida terão que ser bem maiores para nos derrubar.
Um cara chato ou uma tia debochada falar sobre nosso cabelo, peso, bunda ou roupa, não vão ser suficientes para fazer a gente perder tempo fazendo coisas que não queremos, gastando dinheiro com coisa que não precisamos e energia com pessoas que não gostamos.
Autoestima é limite. Limite vem de valores definidos, Valores definidos vem com autoconhecimento. Autoconhecimento vem do desconforto e da coragem de se olhar no espelho e mudar o que for preciso.


Adorei