A questão dos relacionamentos

Quando falamos de longevidade saudável e Blue Zone temos que falar sobre a questão dos relacionamentos.

Este texto é da terceira temporada do Bocadinho, O Poder do Tempo.

Ouça abaixo:

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Um pouco de história

Eu sempre me imaginei tendo uma família. Quando era novinha eu achava lindo casais jovens já com filhos. Talvez porque esses eram meus pais, que casaram cedo, e tiveram eu e meu irmão cedo. Nossas fotos de família, da minha infância, devem ter ficado marcadas em mim e era assim que eu me imaginava quando crescesse.  

Mas, já disse algumas vezes aqui no Bocadinho que muitas vezes o que nós falamos que queremos não tem nada a ver com as nossas escolhas do dia-dia.

E aí, quando o assunto era relacionamento eu mais uma vez era o meme de expectativa versus realidade perfeito: na expectativa uma família linda de propaganda de margarina: eu, meu marido, nossos filhos, o cachorro, todos com looks combinando porque sou dessas. Do outro a realidade, eu pensando em mim, preocupada comigo, não querendo abrir mão de basicamente nada, não me colocando vulnerável e não conseguindo me conectar de verdade. 

Ou seja, eu mirava na foto de família e acertava em cheio na solidão.

E antes que você imagine que quando acertei em cheio na solidão significa que fiquei solteira a maior parte do tempo até aqui, te digo que foi justamente o contrário: desde que comecei a namorar, eu não fiquei nem 1 ano inteiro solteira.

A teoria e a prática

Pensa que confuso para mim era: eu sabia o que queria, ou pelo menos achava que sabia. Tenho na minha família exemplos da união que eu imaginava pra mim. Meus avós maternos, por exemplo, estão casados há 66 anos. Eles tem 87 anos, 5 filhos, 10 netos, 1 bisneto.

Eu cresci dentro disso… é claro que eu acho que é possível.

Mas, como sempre, na prática, a teoria é bem outra.

Eu olhava meus avós, carinhosos, companheiros, reunindo dezenas de pessoas ao redor deles, a família da qual faço parte, que existe pela dedicação e amor incondicional deles, e pensava: é isso que quero.

Mas levou um tempo até eu entender que a foto linda do porta retrato é feita de minúsculas fotinhos quase invisíveis tiradas diariamente. E que normalmente essas fotinhos são escuras, embaçadas e difíceis de entender olhando só elas, mas que no todo, formam uma imagem bonita.

Os hábitos da Blue Zone

Lembra que comentei sobre os oito pontos em comum as Blue Zones, as áreas com maior longevidade do mundo? Um deles é dar prioridade a quem amamos.

Quando eu fui para a Blue Zone italiana, que fica na Sardegna, eu tive várias demonstrações da prática desse conceito.

É inquestionável o valor que eles dão para a família.

Eu visitei um agriturismo na região de Villagrande Strisalli, uma das áreas pertencentes a Blue Zone sarda, e a experiência foi muito marcante. 

Agriturismo é um tipo de hospedaria familiar, em que você fica na casa deles e normalmente a propriedade tem produção de animais, plantas e assim você come o que é feito no dia com a colheita do dia ou da semana. Eu fui lá só para jantar, não me hospedei.

A Franca me recebeu com muito carinho. Fiquei na cozinha enquanto eles estavam preparando nosso jantar. Estava ela, as duas filhas, o marido e o irmão.

O irmão chegou com as carnes dos animais que iríamos comer, que ele mesmo matou e ficou lá fora, na churrasqueira.

A filha mais velha estava ajudando a mãe a fazer o jantar. A mais nova estava meio na cozinha, meio no administrativo da hospedaria. O marido da Franca estava na cozinha, e me ensinou como ele faz queijo. A Franca era quem orquestrava tudo, a mamma italiana que colocava a mão na massa e conectava todo mundo.

Enquanto eles me mostravam como cozinhavam e contavam como era o processo de cultivo, eu ia fazendo perguntas. Estava achando tudo aquilo o máximo.

Contei no episódio O poder da pausa, sobre a pergunta que eles me fizeram sobre o tamanho da cidade que eu morava no Brasil e como as poucas frases que seguiram depois da pergunta me impactaram.

Quando disse que onde moro tem milhões de pessoas, eles me olharam assustados, visto que eles moram em uma vila no interior de uma ilha na Itália. Olharam um para o outro e ela disse sorrindo, Aqui somos em cinco, e está ótimo. SE beijaram e voltaram para o trabalho.

Eu cheguei lá me achando a conquistadora do mundo, com 31 anos na Sardegna, viajando sozinha, bancando tudo com meu dinheiro vindo do meu trabalho. Que conquista! Que construção! Que inútil!

Com uma frase, seguida de um gesto, seguida de uma das refeições mais afetuosas e especiais que tive a oportunidade de saborear na vida, eu levei um soco no estômago e um tapa na cara, e o pior: saí de lá sorrindo.

Franca ao centro e meus amigos daquela noite

Aí bateu a realidade

Não é fácil você perceber que o que você construiu com tanta dedicação vai perder sentido em pouquíssimo tempo se você não tiver alguém para dividir.

Não é fácil admitir que você estava olhando pro seu próprio umbigo e que se não parar, quando levantar a cabeça vai ver que não tem mais ninguém do seu lado.

Também não é fácil para mim vir aqui, escrever e depois gravar tudo isso para você e milhares de outras pessoas saberem de detalhes íntimos meus.

Mas, sabe porque eu faço isso? Porque infelizmente eu sei que não é algo só meu.

Eu vejo a gente se perder em status, profissão, dinheiro, festa, com uma facilidade tão grande, tão assustadora… e tudo isso na busca da conexão.

E pode me chamar de antiga, antiquada, quadrada… mas, de verdade, se não for para construir algo com ou para alguém, qual o sentido do plantio todo?

O que adianta a gente acelerar que nem doido por 10, 15, 20 anos, crescer no trabalho, ficar conhecido, ganhar dinheiro, se quando chegarmos aos 35, 40, 45 anos a gente ver que está tudo superficial. Que a gente ficou brincando num espelho d’água com medo de não ter pé no oceano?

Aí, lá estava eu, cara a cara com o afeto, a entrega, a união, e quando me olhava no espelho lembrava do meu fracasso épico. Eu, que achava que sabia o que queria, eu que tive a audácia de falar pro meu ex que estávamos construindo a nossa própria blue zone quando compramos nosso apartamento, e que não percebi a unica coisa que faria aquilo fazer sentido de verdade.

Nada como ir até lá para ver… ou melhor, nada como ir até lá para sentir.

O poder do tempo

A gente quer ter o relacionamento de anos de sucesso, parceria e entrega, mas a gente não está disposto a aguentar as fotinhos embaçadas do dia-dia para no longo prazo ter a foto bonita.

O amor que constrói o relacionamento fofo dos velhinhos, que construiu a minha família, que eu vi e senti na família da Franca, essa parceria de vida, essa construção de família, é o amor incondicional.

Amor incondicional não é aquela coisa romântica e boba, que a pessoa faz coisa sem sentido, toma decisão esquisita tipo contratar carro de som para aparecer no prédio do trabalho do ser amado no aniversário dele. Nada disso. 

Amor incondicional é aquele que quando a pessoa está no seu pior dia, com a sua sombra toda a mostra, ou parte dela já que temos vergonha e medo de nos expor totalmente, a gente tem coragem de olhar, encarar e ficar. E mais que isso, a gente tem a delicadeza de acolher.

Amor incondicional é deixar a pessoa falar a verdade e ficar lá, sem fugir. Ouvir bravamente, e não ir embora.

Isso mesmo, amor incondicional é aquele que quando a pessoa tá no dia de merda dela e respinga em você, você olha através e continua lá.

É quando sua mulher precisa de você porque está exausta de ficar o dia inteiro com o filho pequeno, você diz não para o happy hour com os colegas de trabalho e, mesmo exausto também, vai para casa dar apoio pra ela. 

É quando a pessoa é demitida e fica sem dinheiro para pagar as contas da casa, a família faz sacrifício, ajuda a pensar em alternativas.

É quando a pessoa esquece de te avisar onde foi ou vai no mercado e esquece justamente o que você mais precisava, você não tem um ataque de fúria e fala que ela não faz nada direito e que está cansado de resolver tudo sozinho.

E sim, vai de uma besteira como relevar que ela esqueceu de comprar guardanapo a algo grande como apoiar uma decisão de mudança de carreira ou país.

Amor incondicional é isso.

E é isso que a gente não sabe exercer.

E, na minha opinião, é por isso que não sabemos escolher nossos parceiros de jornada.

Amor líquido

Bauman, o filósofo contemporâneo que escreveu sobre a liquidez da sociedade moderna, é lugar comum nas discussões que minha geração levanta para falar sobre relacionamentos. Até perfil no Instagram com tiradas engraçadas já ganhou. Mas, olho pro lado e ainda vejo meus amigos e até eu com dificuldade de deixar nossos relacionamentos mais sólidos.

Eu lembro que comecei a ler Amor Líquido um pouco antes de terminar meu antigo relacionamento, e eu fiquei bem incomodada ao ver que ele estava me descrevendo. Descrevendo meu ex. Descrevendo nossa relação.

Uma relação superficial, de duas partes que fazem questão de mostrar que estão ali só até ser bom para si. Que fazem questão de falar que “eu estou aqui porque quero, não porque preciso”, com um tom de ameaça e de lembrete da fragilidade e desimportância que você trata o vínculo.

Que, vamos ser sinceros, nem existe.

E aí, meus amigos, como que nós que não conseguimos nem assumir nossas fraquezas e necessidades para nós mesmos, e nos escondemos em nossas conquistas superficiais para mostrar que nem precisamos do outro, queremos acolher uma outra pessoa com as fraquezas e inseguranças dela?

Como queremos viver o amor incondicional se colocamos uma centena de condições e limites que no fim não servem de nada a não ser nos manter desconectados e sozinhos?

Como é que a gente quer ter um velhinho ou uma velhinha parceira do nosso lado se a gente não tá aguentando nem um dia ruim do novinho e da novinha? Se no hoje, que a beleza, energia e disposição ainda seguram o resto, como que a gente acha que quando tudo isso for embora, algo vai restar?

Amor ou interesse?

Nós achamos que temos “amor” por alguém mas na verdade é interesse em algo que ele nos dá e que queremos. A gente exige do outro que ele preencha algo que não conseguimos, e que francamente, nem tentamos.

Aí, o outro te decepciona ou te incomoda pq foi jogar bola com os amigos, porque gastou dinheiro comprando algo de seu interesse, pq tá num dia terrível e chegou em casa sem vontade de dar OI, e nos achamos no direito de deixar claro que adoramos eles, mas não muito né, pq tudo tem limite e você está me incomodando fazendo o que você está fazendo, escolhendo o que você está escolhendo, sendo quem você é.

E assim vivemos GRANDES AMORES até o outro fazer algo que A GENTE NÃO QUER. Lindo, muito lindo. 

Mas tudo bem, porque hoje é assim mesmo, tudo liquido, tudo fácil.

Você diz que não aguenta mais, larga tudo, vai embora e no dia seguinte já faz o download de um aplicativo e deslizando o dedo numa tela escolhe um possível novo passatempo.

Apaga as fotos de casal perfeito das redes sociais, bloqueia do whatsapp e vida que segue. 

Acha mil e um motivos para justificar porque deu errado e ele não era pra você, e continua.

Ai que delícia, ai que fácil! Incomodou é só apertar um botão.

E não vemos como ao tratar o outro assim a gente ensina exatamente como nós nos tratamos.

Se você conhece meu trabalho, você sabe que para mim o seu único problema é você mesmo. Você também é sua única solução.

Ninguém vai te salvar a não ser você. Ninguém vai te humilhar, a não ser você.

E eu vou te explicar como que eu, você e metade (para não dizer a maioria) das pessoas que conhecemos chegamos até aqui e porque que está tão dificil da gente sair.

Interesse ou medo?

Por medo de realmente se entregar, de quebrar a cara, ser enganado, ser passado pra trás, ser feito de trouxa, a gente coloca condições para amar.

E eu sei que você pode estar pensando “Claro, Flavia.. eu já sofri. Já fui enganado, já fui traído.. não quero mais passar por isso”.

Eu entendo, eu também já. Mas, amigos, amar é um ato de coragem e de entrega, não de certezas e garantias.

Até porque, não sei se você já percebeu, mas quando você entra em um relacionamento decidido que vai confiar desconfiando, que vai tentar sabendo que não precisa ficar ali, você está colocando condições para o amor.

E aí, é só esperar, porque é questão de tempo para vocês desistirem e ele acabar.

Porque você pode ter certeza que quem você ama vai te decepcionar em algum momento, vai ter dias ruins, vai ter suas dúvidas e seus medos. Porque a pessoa que você ama é um ser humano imperfeito e confuso igualzinho você e eu.

E enquanto vocês não perceberem que a jornada não depende de dia de sol, de chuva, de subida, descida, de tronco no caminho, vocês vão querer mudar de caminho sempre que o desconforto aparecer.

O amor é escolha diária. É aceitar que os dois estão cheios de falhas, mas que apesar delas vocês querem viver o amor juntos. Isso é amor incondicional.

Quantas vezes deixamos de falar o que sentimos ou pensamos por medo da reação do nosso parceiro, e assim vamos minando quem realmente somos e ficando cada vez mais distantes de nós mesmos. 

Se tem um hábito nocivo em um relacionamento é justamente se sentir envergonhado ou mal por expor o que sente ou pensa. Julgamos o que o outro pensa, fala e faz e não damos espaço para ele ser ele. 

A gente conhece aquela pessoa literalmente por dentro, a gente beija, transa, toma banho juntos. Mas na hora de conhecermos o interior sutil dela, temos medo de olhar.

E isso normalmente acontece porque lá no início a gente deixou claro que só vamos ficar ali enquanto estiver bom pra gente. Nós sutilmente deixamos o outro lado com medo de dizer o que sente ou pensa, com medo de se expor e de errar. Porque colocamos as condições para aquele amor existir.

Quando isso acontece, no medo de ficarmos sozinhos, vamos nos podando. Não falamos mais exatamente o que pensamos e sentimos. Mas continuamos sentindo e pensando. 

Até que uma hora isso fica insustentável. A gente acaba abrindo mão de muita coisa e nada muda – a pessoa continua sem te entender, sem te acolher. 

O seu sentimento de valor, de pertencer, você deixou nas mãos de outro. 

Esse outro que não pensa e não sente como você, e que talvez não esteja disposto e nem aberto para conhecer seus pensamentos e sentimentos porque ele mesmo não conhece a si próprio. Ele mesmo não sabe o que é isso.

Pra mim, amor não é isso. Amor não é gostar só das partes que não agradam e que nos fazem bem. Dar atenção e importância só ao que queremos ouvir. 

Amar é ver e sentir o desconforto do outro e não se eximir de responsabilidade. 

É permitir que haja espaço para esse encontro do outro com ele mesmo, e fazer ele se sentir seguro ao fazer pq vc não vai abandonar ele no caminho por ser quem ele é. 

O amor de família

E eu só percebi que a minha família de propaganda não existiu ainda porque eu sempre coloquei mil e umas condições para o amor, quando levei aqueles tapas na cara da realidade um ano atrás. Com 31 anos eu percebi que todos os relacionamentos que tive até aqui eu entrei pronta pra sair.

Lá, eu relembrei do amor que eu aprendi com a minha família. Com meus avós, meus tios, meus primos, meu irmão, minha mãe e meu pai. Eu já fui uma adolescente chata e mimada, eu me afastei e coloquei muralhas entre nós, e depois voltei como se nada tivesse acontecido, pedindo desculpas pelos momentos de rebeldia.

E hoje, eu sei que só fiz isso porque eu sentia que eles me amavam incondicionalmente. Eu só pude fazer tudo isso porque eu não tive medo de ser abandonada no caminho.

E eu só tive forças para melhorar como pessoa, porque chegou um dia que eu quis retribuir todo aquele amor e pra isso, eu precisava entender o amor incondicional.

Eu claramente não sou uma especialista em relacionamentos de sucesso. Mas, hoje, depois de tudo que passei, que vi, que ouvi, que li, eu sei que estou mais perto de construir a família que eu sonho.

Não porque agora eu acho que tudo vai ser fácil, não mesmo. Até porque a única coisa que sei é que definitivamente não vai ser fácil.

Mas hoje eu sei que o primeiro passo para ter alguém ao meu lado durante minha jornada até os 100 anos é escolher tirar as fotinhos diárias e ter paciência quando ela sai embaçada ou escura, porque juntos vamos conseguir reunir os pedacinhos e formar uma imagem maior, mais clara e mais bonita.

Lá no youtube e no Instagram tem materiais complementares aos episodios aqui do Bocadinho. Você me encontra nos dois como Flavia Machioni e eu vou amar saber sua opinião.

Se você não ouviu os outros episodios dessa temporada, convido você a ouvir.

Na próxima semana volto com mais um hábito dos centenários e uma reflexão para trazer pro nosso dia. 

Até lá!