Estresse: um mecanismo de sobrevivência. Você sabia?
Na terceira temporada do meu podcast, Bocadinho, falei sobre a longevidade possível. Você pode ouvir o episódio clicando abaixo:
Listen to “T03E07 – Estresse. Um mecanismo para a longevidade.” on Spreaker.
Estresse: um mecanismo de sobrevivência
Não sei como começar este episódio sem cair em algum clichê. É fim de ano, estamos em dezembro, é 2020 e eu vou falar sobre o hábito de desacelerar dos centenários das Blue Zones.
Desacelerar nada mais é do que gerenciar o estresse. E antes de entrar na minha reflexão sobre o assunto, quero antes falar sobre o que é o estresse em si. O episódio de hoje vou entrar em um aspecto um pouco mais teorico
que o normal, mas acredito que vai ser interessante pra você que quer viver uma longevidade saudável e possível.
O que é o estresse
Estresse é qualquer tipo de fator físico, mental ou emocional que causa tensão no corpo e traz mudanças químicas, físicas ou comportamentais.
Ao contrário do que podemos pensar de primeira, uma pessoa estressada não necessariamente será aquela pessoa que está sempre com a cara franzida, reclamando, irritada. Apesar dessa ser uma imagem clássica (e muitas vezes real), há muitos de nós que vive em estresse crônico e não sabe!
Primeiro, é legal saber que o estresse é um mecanismo de sobrevivência que temos desde a época em que morávamos nas cavernas e por isso ele é importante.
Pense que naquela época, precisávamos estar atentos aos perigos reais que poderiam surgir – como animais grandes atacando sua cabana ou uma tribo vizinha invadindo seu território.
O sistema imunológico humano surgiu e evoluiu na época em que todo “desafio” envolvia um perigo real e que para sobreviver a ele um grande uso de energia física era necessário.
Nessa época, o estresse vinha e ia embora. A resposta metabólica era ativada automaticamente e alguns minutos ou horas depois, nosso corpo já estava em descanso, sabendo que o perigo passou.
Os anos passaram, nosso estilo de vida e sociedade mudou bastante e evolui, mas nosso metabolismo não acompanhou essa evolução. Ele continua funcionando basicamente da mesma forma há milhares de anos.
Os dois tipos de estresse
Hoje em dia nós dividimos o estresse em dois tipos:
- Mental ou percebido que surge em um momento em que não estamos realmente em perigo, mas percebemos tensão, como por exemplo em uma discussão com o chefe ou amigo, preocupação com situações futuras ou passadas, dificuldades em relacionamentos, etc.
2. Físico ou real que é um momento em que o corpo precisa se ajustar a circunstâncias que o tiraram do equilíbrio natural como por exemplo quando entramos em contato com toxinas, alimentos que somos intolerantes, dormimos pouco ou sofremos alguma lesão/machucado.
O que precisamos lembrar é que o estresse teoricamente deveria ser uma resposta de curto prazo para uma situação pontual (como na necessidade de fugir ou se defender), nesse caso chamado de estresse agudo.
Ele passa a ser ruim para a saúde quando se torna crônico, ou seja, quando deixamos nosso corpo sempre em alerta para se proteger ou defender de um perigo – mesmo que seja uma situação psicológica/emocional.
E se você já ouviu falar que estresse é o mal do século, saiba que é justamente pelo estresse emocional ou percebido, esse estresse crônico e sutil que permeia nossos dias como se fosse algo normal.
E aí que começa nossa reflexão….
Os hábitos dos centenários saudáveis
Um dos oito hábitos encontrados nas 5 Blue Zones do mundo, as áreas com maior número de centenários saudáveis e lúcidos no mundo, é fazer tempo para desacelerar, que como comentei no início deste episódio, nada mais é que gerenciar o estresse.

Nietzsche escreveu há 131 anos que existem três tarefas que precisamos de educadores para aprender: ver, falar e pensar, e escrever.
Para ele, aprender a ver é habituar o olho ao sossego, à paciência, a deixar as coisas se aproximarem, adiar o julgamento.
E, sinceramente, quem sabe hoje em dia fazer isso?
Reflita rapidamente e responda pra si mesmo: quantas vezes por semana você consegue ficar pelo menos 20 minutos sem o celular, sem uma tela de TV, de computador, sem fone de ouvido?
Quantos minutos da sua semana você consegue tirar o foco da sua percepção de você mesmo e observar o mundo que te cerca?
Há 131 anos ele já via isso como um problema na sociedade que ele vivia, que tinha muito menos estímulo que hoje. Imagina como estamos nós.. imagina como vamos ficar mais pra frente… pior, imagina como vai ser a geração que está vindo?
Pisar no freio ou acelerar?
Eu sempre tive muita dificuldade em desacelerar. Se você ouviu outros episódios do Bocadinho já percebeu isso.
Eu tive que realmente aprender a pisar no freio, e sofri enquanto pisava achando que estava ficando pra trás, que não tinha direito de diminuir o ritmo e me sentia culpada por tirar algumas horas de folga em um dia.. você ouviu bem, algumas horas de um dia. Um dia inteiro de descanso pra mim era impensável. Tirar férias então.. não sabia o que era até novembro deste ano.
Em novembro deste ano eu não tive escolha… um ano pesado como 2020, em que cada um viveu suas batalhas e teve que suportar distâncias, incertezas, perdas, medos, insegurança, mudanças constantes, o estresse que já era crônico ficou incrustado na gente como se fosse o único mecanismo de sobrevivência possível em um momento tão incerto.
Mas, o estresse quando crônico acaba com a nossa saúde. Sem exageros, ele acaba mesmo. O estresse detona nosso sistema imunológico, nossa digestão, nossa recuperação e renovação celular. Não bastasse isso, ele afeta o sono, o humor, a aparência.
E o pior é que ele é silencioso, principalmente quando o mundo está vivendo nele em níveis altíssimos.
2020 a ameaça real e virtual se misturou e amplificou o estrago uma da outra. O perigo físico e o perigo percebido formou um ciclo vicioso em que a saída parecia impossível… um daqueles labirintos que realmente parece que não vai te levar a lugar algum mas que você também não faz ideia de como sair.
Mas, na minha opinião, 2020 só trouxe tudo isso para a superfície, para escancarar para todo mundo o que vinha acontecendo e ninguém conseguia ver, talvez porque não aprendemos a ver, como Nietzsche sugeriu 131 anos atrás.
Estímulos e cobranças constantes
Nós vivemos com um monte de “ter que”. Temos que fazer, temos que saber, temos que estar, temos que continuar. E como Nietzsche também disse, esse “ter que” já é sinal de enfermidade, de declínio, um sintoma de esgotamento. Como ele coloca sabiamente, tudo o que hoje chamamos de vício é apenas a incapacidade fisiológica de não reagir a algo.
Nesse eterno ter que, a gente não consegue não reagir ao estímulo, a gente cede, continua, não para.
A gente não sabe desacelerar.
E o pior é que achamos que não parar é legal. Que desacelerar é sinal de fraqueza. Que quem faz isso não é bom o suficiente, não é resiliente.
Mas, como li esses dias em algum lugar, ser resiliente não é sobre não parar, mas sobre saber quando tirar uma folga, recarregar para ser melhor e voltar.
Ou seja, ser resiliente é mais sobre desacelerar do que ficar com o pé no acelerador a todo custo.
Esse ano foi pesado, mas é no momento da dor, da crise, do desespero que mais temos chance de mudar, evoluir, crescer.
A nossa resiliência precisa de pausa. A gente precisa desacelerar.
A crise de saúde que estamos vivendo na época com maior geração de riqueza, avanço tecnológico, saúde básica e produção da história da humanidade escancara que estamos todos sonâmbulos.
A gente anda por aí dormindo por dentro. Não me choca que não percebemos as pessoas ao nosso redor, que vivemos esbarrando nos mesmos problemas e batendo a cabeça em portas fechadas não percebendo que existe uma imensidão de oportunidades além dela.
Acredite, você não quer chegar antes
Sabe quando dizem que mais importante do que largar em primeiro é conseguir continuar até o fim?
Eu estou lendo um livro chamado The Psychology of Money, e apesar do foco dele ser sobre finanças e investimento, muito do que ele aborda ali pode ser usado para outras esferas da nossa vida.
Quando ele fala do maior investidor atual, Warren Buffet, ele falou uma frase que parece boba por ser óbvia, mas que quero dividir com você porque como diz minha terapeuta: o óbvio precisa ser dito.
Ele sobreviveu e isso deu a ele longevidade.
Óbvio, né?
Para chegar a longevidade possível, temos que sobreviver.
A sobrevivência precisa do estresse, mas do agudo, não do crônico.
O estresse agudo tem hora para começar, mas mais do que isso, ele tem hora para acabar.
Não existe longevidade com estresse crônico, e talvez o hábito de desacelerar que os centenários tem seja o maior desafio que temos hoje.
Nós não sabemos dosar a dor e o prazer..
Nós queremos muito dos dois. Achamos legal aguentar a dor para depois se jogar no prazer. O famoso “work hard play hard”.
Trabalhamos 10, 12, 14 horas por dias, durante 11 meses no ano. No mês que temos para tirar férias a gente vai fazer turismo em lugares com muito estímulo, muita gente, muita comida, muita bebida, pouco sono.
Estímulo atrás de estímulo, “ter que” atrás de “ter que”. O símbolo do declínio.
Domenico de Masi no ano 2000 publicou seu livro O Ócio Criativo. Há 20 anos ele falava da necessidade de mudanças na sociedade pós industrial. Falava da importância de se aprender o que fazer com o tempo livre, o tempo ocioso que seria cada vez mais abundante e que cada vez menos saberíamos como usar.
Em 2000 não tinha redes sociais, não tinha Covid, não tinha home office e todo o mundo dentro de casa ao mesmo tempo. Mas ele já falava que o futuro seria trabalhar remotamente, dentro de casa, e que isso traria problemas para as famílias porque os adultos que trabalham fora não sabem o que fazer com seu tempo se não estiverem dentro do escritório trabalhando.
Veja bem, Nietszche em 1889 falou que tínhamos um problema em ver, De Masi em 2000 falou que teríamos um problema se nos tirassem dos escritórios… e a gente acha que o problema foi o Covid quem trouxe.
Como disse, 2020 trouxe pra superfície o que estava latente.
Isso quer dizer que a vacina vai resolver uma parte pequena do que está acontecendo… porque o buraco está mais embaixo.
Tempo, ele quem comanda
Tudo o que você faz hoje vai ter impacto na sua vida amanhã. Tudo o que você fez até aqui, você já está colhendo os impactos.
Como dizem: o plantio é facultativo, mas a colheita é obrigatória.
Você pode plantar sem pensar no que você está querendo colher, mas a hora de colher chega, querendo ou não.
Por isso, não escolha pensando no agora, pense lá na frente.
Demora mesmo… para todo mundo. Até pro Warren Buffet que hoje é o ícone de todo investidor. Ele investe desde os 10 anos, quando ele tinha 30 anos ele tinha 1 milhão de dólares investidos, o que hoje seriam 9.3 milhões ajustados pela inflação.
Mas, como Morgan Housel, o autor do livro The Psychology of Money, escreveu: a habilidade dele é investir, mas o segredo é tempo.
Warren Buffet já disse em entrevistas que ele sabia que seria rico e não estava com pressa. Ele não desistiu, ele continuou.
Ele passou por pelo menos 6 crises econômicas entre Guerra Mundial, quebra de bolsa e bolhas imobiliárias que estouraram.
O que quero dizer com isso?
Algo que já falei aqui: o mundo não é mais fácil para ninguém. O que diferencia quem alcança longevidade saudável seja financeiramente, fisicamente, mentalmente, emocionalmente, é a flexibilidade e resiliência.
E como vimos, resiliência não é sobre não parar. É sobre saber quando parar para recalcular, reenergizar e voltar, quando for a hora.
Faça isso
Fim de ano é clichê, e eu disse que não ia conseguir fugir.
O exercício que proponho para você hoje é simples, mas desafiador.
É hora de desacelerar, com vontade.. quem sabe parar.
Se em 2020 você continuou fazendo o mesmo que fez até aqui, é hora de parar.
Nós somos parte da crise e somos responsáveis pelo estresse crônico ter se tornado algo comum.
Mas ele não é. E se você não parar, se você não desacelerar, não vai mudar nada.
Tenha coragem e pare. Veja quais pratos que você se desdobra para manter em movimento e não cairem vão cair e deixe.
Se você tem medo de fazer isso, eu te entendo. Eu também tenho. Mas, faça. Pela sua saúde, pela minha, pela do mundo.
É hora de colher o que foi plantado sem tanta consciência. Vai lá no seu jardim e veja o que tem lá.. retire tudo. Só assim você vai ter espaço para plantar o que você escolher.
Só existe começo porque tem fim.
Pausa
Semana que vem volto com o penúltimo episódio dessa mini série sobre longevidade possível, que no meio dela eu tive que desacelerar para gerenciar meu estresse.
Pensei que não conseguiria voltar porque não saia nenhuma linha de palavra quando sentava para escrever, mas para voltar com mais um pouquinho de fôlego eu precisei parar.
Fôlego esse que vocês me deram, ao fazer o Bocadinho entrar nas paradas do Brasil, ficar em primeiro lugar e ter tanta audiência.
Você pode não saber, mas ajudou a regar a sementinha que plantei. Muito obrigada!
Espero você no Instagram, como sempre!
Até o próximo.

