Porque temos hábitos ruins

Se você já se perguntou porque temos hábitos ruins, essa reflexão sobre a lacuna dos hábitos e minha pesquisa com os centenários da Blue Zone da Sardegna – Italia pode te ajudar.

Você pode ouvir o texto que faz parte da terceira temporada do meu podcast, Bocadinho, abaixo:

Listen to “T03E05 – A lacuna dos hábitos” on Spreaker.

A Blue Zone da Sardegna

Quando eu fui para a Sardegna, visitar e pesquisar sobre a Blue Zone, uma das cinco áreas no mundo com maior índice de longevidade saudável, eu tive a oportunidade de conversar com o Dr Raffaele Sestus, médico que já atendeu 23 centenários só na cidadezinha que ele mora, Arzana, uma das pertencentes a Blue Zone italiana.

Ele me recebeu numa sexta-feira, já fim do dia, depois de uma semana inteira de atendimentos. Ele foi minha última entrevista da semana que passei na Blue Zone com o pesquisador Petros e Claudia me acompanhando e guiando e não poderia ter encerrado de forma mais especial.

Conversamos por mais ou menos 1 hora, e a animação e carinho dele ao falar dos seus pacientes foi tocante. 

De tudo o que ele me contou o que mais me marcou foi como ele descrevia suas visitas a seus pacientes. Parecia mais um encontro entre amigos, porque os centenários brincavam com ele, falavam besteiras e ele, mesma coisa.

Como já tinha tido algum contato com toda aquela realidade, o que ele me contou reforçou o que eu percebi: o segredo da longevidade deles ia muito além de hábitos alimentares.

O Dr Rafaele tem uma hipótese sobre o fenômeno de longevidade da Sardegna e eu achei linda, quero compartilhar com você.

Ele disse que existem quatro características que ele observou em todos os seus pacientes com mais de 100 anos. O que ele chama de GAIA, um acrônimo para genética, auto estima, interação social e alimentação.

Receita do Dr Raffaele Sestu

Os hábitos que definem as Blue Zones

Quando relembrei dos pontos das Blue Zones definidos pelo jornalista americano, Dan Buetner, entrei no site dele e vi que ele divide em quatro categorias: perspectiva certa, conexão, comer com sabedoria e mover-se.

Os dois falam essencialmente sobre a mesma coisa, e agora que já apresentei para você o que, na minha opinião, são os três erros fundamentais que estamos cometendo ao buscar uma longevidade saudável, a partir de hoje vou entrar em detalhe em como vamos mudar isso.

Hoje nós vamos falar sobre hábitos!

Se você ouviu os outros episódios dessa temporada sobre o Poder do Tempo no Bocadinho, você já deve ter percebido que um dos segredos para a longevidade possível é ter bons hábitos.

O que fez esses centenários virarem um tema a ser estudado foi o resultado das micro ações do dia-dia que fizeram por anos e anos a fio e que resultaram em uma longevidade saudável e lúcida.

Eles não chegaram lá com velocidade e nem intensidade, e sim com constância! Simples, mas complicadíssimo.

Simples porque é só saber priorizar, complicado porque é só conseguir priorizar.

Os hábitos no mundo ideal

No mundo ideal os nossos hábitos seriam todos saudáveis, ou seja, eles teriam sido criados com um objetivo claro que temos e que no médio, longo prazo conseguiríamos alcançar, porque estaríamos ativamente fazendo algo para isso diariamente.

Aquele papo da grande jornada que começa com um passo, sabe?

Mas bem sabemos que essa não é nossa realidade, saber o que deve ser feito não é sinônimo de fazer o que deve ser feito. Mas, é para isso que eu estou aqui.. tentar diminuir a lacuna entre o saber e o fazer. Transformar a teoria em uma prática possível.

O primeiro ponto a se considerar para entender o porquê a expectativa fica longe da realidade quando pensamos em hábitos que constroem uma vida saudável e longa, é como nosso cérebro funciona: ele prefere algo que tenha uma recompensa rápida e ele prefere economizar energia.

Portanto, ações que não dão uma recompensa imediata, ou que pior ainda, trazem desconforto momentâneo, já são mais difíceis da gente querer fazer naturalmente.

Não bastasse isso, nosso cérebro vai armazenando informações para atividades que fazemos com certa frequência e em um certo momento elas se tornam automáticas, ou como chamamos, hábitos.

É assim que de repente a gente tem hábitos que não ajudam em nada no longo prazo como chegar em casa, sentar no sofá e ficar no celular ou ligar a TV.

Como comer com pressa sem perceber o sabor e textura da comida.

Como pegar as chaves de casa e colocar na bolsa e depois não lembrar se colocou a chave na bolsa.

Ou fazer o caminho do trabalho para casa, chegar em casa e não conseguir lembrar como você fez o caminho.

Tudo isso são hábitos e eles existem justamente para você fazer algo de forma mecânica e poder ter energia sobrando para outras coisas.

Os hábitos no mundo real

A questão é que a maioria dos hábitos que temos hoje foram construídos por acaso, no sentido que repetimos algumas vezes algo e aquilo se tornou um hábito. Isso quer dizer que não necessariamente nós pensamos antes de criar este hábito. 

Nós não fizemos um plano para ele e começamos a colocar em prática de forma gradual e constante.

A mesma coisa aconteceu com quem hoje é centenário, mas como eu disse no segundo episódio dessa temporada, o contexto deles era totalmente diferente do que vivemos hoje.

Sendo bem franca, é mais fácil parar de comer quando se está 80% satisfeito quando tem pouca comida na mesa ou comer muitas plantas quando essa basicamente é sua única opção. Vamos lembrar que muitos dos centenários de hoje passaram por muitas dificuldades financeiras em sua juventude.

Assim como é mais fácil se manter ativo a vida toda, caminhando até o mercado da cidade, fazendo reparos na casa ou cuidando do jardim quando não existe aplicativo no seu celular que com dois cliques e sem sair do sofá você resolve tudo isso.

Por isso, eu não vou falar sobre hábitos neste episódio como a questão quase matemática que ele é e que ficou conhecida com livros como O Poder do Hábito, que particularmente achei interessante, mas raso.

Eu quero falar de hábitos de um ponto de vista mais sutil, sobre aspectos que eu acho que nos faltam em massa e por isso acabamos ou desistindo de tornar uma ação um hábito, ou acabamos vivendo com hábitos que mais prejudicam do que facilitam.

Porque temos hábitos ruins

O primeiro destes aspectos é a paciência.

Segundo a wikipedia, paciência é uma característica de manter um controle emocional equilibrado, sem perder a calma, ao longo do tempo. Consiste basicamente na tolerância a erros ou fatos indesejados. É a capacidade de suportar incômodos e dificuldades de toda a ordem, de qualquer hora ou em qualquer lugar.

Vamos ser sinceros, quantos de nós tem capacidade de suportar incômodos e dificuldades de todo tipo, qualquer hora ou em qualquer lugar?

Não temos a capacidade nem de suportar o sabor amargo de um café puro.. Colocamos açúcar para não ter que lidar com o amargor. E aí tomamos vários cafés por dia, durante semanas, que se tornam meses e depois anos.

E a colherzinha inofensiva de açúcar colocada no café para a gente conseguir beber ele sem sentir desconforto, começa a dar as caras em quilos de gordura acumulados no nosso corpo, em um metabolismo mais lento, inflamado que pode dar lugar a diabetes, disbiose intestinal, irritação. Sem contar o fato do vício de paladar que você desenvolveu ao colocar açúcar todo santo dia no seu café.

Quer tomar café? Aprenda a suportar o amargor.  Café não é doce, café é amargo. E ponto final.

Mas não, a gente quer o caminho mais rápido pro prazer, a solução mais rápida pro desconforto, e é assim que a gente não percebe que criamos hábitos ruins.

Fazer o mundo ser mais fácil, mais doce, mais leve colocando açúcar no que não tem é justamente o que está deixando a gente doente, lento e fraco. 

Uma vida baseada no prazer constante, é uma vida fútil, inútil e imatura. Uma vida sem sentido, sem propósito.

Não é de se admirar que o resultado desse foco constante pela felicidade baseada em uma vida fácil, prazerosa e sem esforço está nos tornando uma sociedade cada vez mais doente, simplista e superficial.

A paciência da Blue Zone italiana na Sardegna

Intolerância ao desconforto

A gente tem trabalhado nos últimos anos justamente para diminuir todo e qualquer incômodo. Nos dedicamos a desenvolver tecnologias e soluções para resolver pequenos incômodos diários como subir escadas, ter que cozinhar nossa comida, ter que esperar o tempo do cultivo de um certo alimento. 

Assim, nos habituamos com tudo fácil, rápido e indolor.

Tudo isso baseado na nossa impaciência e despreparo emocional de suportar dificuldades, incômodos.

Aí, fica difícil mesmo construir hábitos de vida saudáveis baseado em idosos que conviveram muito mais com incômodo e desconforto do que com prazer.

E não pense que é só na alimentação essa dificuldade. Os últimos dois episódios, em que falei sobre relacionamentos e carreira, escancaram nossa falta de paciência com basicamente tudo.

O que você acredita sobre você

O segundo ponto que me parece fazer mais difícil para nós conseguirmos criar esses hábitos saudáveis é que nossos hábitos são um reflexo do que acreditamos sobre nos. Ou seja, nossos hábitos constroem nossa personalidade!

De forma geral nós temos hábitos tão superficiais quanto o que sabemos sobre nós mesmos, considerando o fato de que estamos tão acostumados a viver anestesiados, já que criamos mil e um artifícios para não sentirmos dor e desconforto.

Portanto, uma mudança de hábito efetiva tem que vir com uma mudança de percepção de si mesmo e de suas crenças.

E se está um pouco abstrato demais para você entender a ideia, vou contar algo que aconteceu comigo justamente nessa minha viagem a Italia para ver se te ajudo.

O que aconteceu comigo

Eu convivi com restrições alimentares por problemas de saúde por 8 anos da minha vida. Isso fez com que eu tivesse que mudar totalmente meus hábitos alimentares. Passei anos limitando minha alimentação a certos alimentos, principalmente quando viajava ou comia fora de casa, que tinha menos opções ainda do que podia comer.

Além disso, nesses 8 anos que convivi com restrições alimentares, eu também viajei muito a trabalho, então estava pouquíssimo tempo na minha casa. O que me fez perceber que se eu deixasse para me exercitar somente quando estivesse em casa, eu passaria a maior parte do ano sedentária. Então, podia ser viagem a lazer ou a trabalho, segunda ou sábado, eu me habituei a me exercitar em todo lugar que estava, todo dia.

Estava acostumada a ir em restaurantes e comer basicamente o mesmo que comia em casa, não olhar para as sobremesas, manter minha rotina de exercícios em viagens. Esse era meu estilo de vida, eu tinha criado hábitos saudáveis e eu gostava muito.

Acontece que, em 2018 e 2019 eu finalmente consegui melhorar meu quadro de saúde e fui liberada pelos médicos a voltar a comer o que tinha ficado anos sem.

Coincidentemente ou não, no início de 2019 eu também terminei um relacionamento que representava muitas coisas que até então eu acreditava sobre mim mas que não eram exatamente saudáveis.

As mudanças sutis na rotina

Esses acontecimentos trouxeram mudanças radicais na minha vida e no meu dia-dia, mas no início eu não percebi. Eu continuei fazendo tudo igual ao que eu vinha fazendo há anos.

Cheguei até ali fazendo tudo aquilo, e estava em um lugar muito melhor do que quando tinha começado.

Afinal, meus hábitos eram saudáveis, que mal tinha eu continuar? Ou melhor, para que eu iria mudar alguma coisa?

Mas.. o tempo passou e de repente eu já não queria me dedicar as coisas que tinha me dedicado. Eu percebi que quando ia a restaurantes eu não queria mais comer um peixe com legumes, eu queria pedir algo que não faço em casa.. uma fritura, uma massa, um risoto. Queria comer os pãezinhos do couvert. Queria até pedir sobremesa!

Vi também que quando eu viajava eu queria descansar. E que caminhar pela cidade ou correr um dia ou outro em algum parque ou ponto turístico estava bom, não precisava fazer um treino funcional no quarto do hotel todo dia.

E a princípio aquilo me deixou muito confusa… eu não sabia lidar com eu não querendo fazer o que até ali tinha sido o certo a ser feito.

Os quase três meses que fiquei na Italia eu fiz coisas que acho que nunca tinha feito.

Eu comi gelato praticamente todo dia, comia açúcar e farinhas refinados dia sim e dia também, não trabalhei 8 a 12 horas por dia inclusive nos finais de semana, não fiz uma rotina de exercício físico.. Aquela rotina perfeita, saudável, que eu amava e que me fez feliz, eu simplesmente deixei toda de lado.

Acho que fiz até como um experimento para ver o que daquela construção tinha sido real, o que era forte.. e para minha surpresa minha saúde continuou ótima, minha digestão continuou super bem, até meu corpo, do ponto de vista estetico, aguentou na boa. 

Minhas roupas ficaram um pouco apertadas, minhas bochechas um pouquinho mais redondas, mas considerando que eu fui de um extremo ao outro, digo que não aconteceu praticamente nada visível externamente.

Já a mudança interna foi profunda e muito significativa.

Você muda, a rotina tem que mudar!

Uma noite, estava eu em Firenze justamente pensando como era louco ver quanto eu tinha mudado minha rotina e meus hábitos nos útlimos meses e tentando entender o porque de tudo aquilo.. então, fui reler minhas anotações do livro Atomic Habits, do James Clear, e me deparei com a seguinte frase: para se tornar a melhor versão de si mesmo é necessário editar continuamente suas crenças e atualizar e expandir sua identidade.

E aí, eu percebi que a minha necessidade de abandonar aqueles hábitos antigos era porque a Flavia já não era mais a mesma. As minhas crenças eram outras e com isso minha identidade foi mudando.

E eu precisava justamente desta edição das minhas crenças e personalidade para ter mais espaço para trabalhar com hábitos reais e possíveis para mim.

O tempo e espaço que me dei para me redescobrir, para errar, para tentar, foram transformadores.

Hoje, eu vejo rotina como algo muito mais fluído, vivo e flexível do que eu via alguns anos atrás. 

Vejo que um dos pontos fundamentais para começarmos a construir nossas rotinas e hábitos saudáveis é nos conhecermos, sabermos quais nossos valores e definirmos nossos limites.

Falei disso no EP02 da temporada 02.

Como construir os hábitos

Hoje, eu vejo como nossos hábitos devem ser construídos no detalhe, com atenção e acima de tudo, com paciência.

Paciência que se reflete na tolerância ao erro, ao desconforto, a fatos indesejados.

Paciência que se assemelha a resiliência e adaptabilidade.

O mundo que vivemos hoje em nada lembra o mundo do início do século passado.Nos cobrar hábitos que se assemelham a quem construiu sua vida com menos opções, conforto e dilemas, é algo simplista e até cruel.

Os hábitos infelizmente não são uma equação matemática resumida a deixa, ação e recompensa. Eles são um livro longo, complexo e cheio de páginas em branco a serem preenchidas.

Mas você sabe que no fundo eu sou uma otimista, né?

E é óbvio que eu vou tentar de alguma forma que a gente complete algumas páginas desse livro com decisões, rotinas e crenças mais próximas do que queremos nos tornar e construir.

Vou deixar você com uma sugestão de exercício para começar a mudar ou construir hábitos mais saudáveis, topa?

Faça isso:

Quando este episódio terminar, liste todos as coisas que você faz diariamente que são hábitos. Por exemplo: ir ao banheiro quando acorda, escovar os dentes, lavar o rosto, passar café, preparar um sanduíche para comer no caminho do trabalho, pegar o telefone quando entra no elevador, conferir redes sociais quando o sinal fecha.

Enfim, vá escrevendo tudo o que você faz no seu dia-dia e quais suas manias, vamos dizer assim. Ao lado, dê uma nota de 1 a 5 do quanto aquela atividade te faz bem do ponto de vista emocional e fisico.

Esse primeiro exercício vai te dar uma ideia de quais os hábitos que você tem hoje e quão saudáveis você os considera.

Depois disso, escreva quais hábitos você gostaria de incluir no seu dia-dia. Por exemplo: meditar, praticar exercícios físicos, ler mais, cozinhar sua comida.

Com essas duas listas feitas, analise quais atividades que você faz hoje que tem a nota mais baixa e que você poderia substituir por alguma outra atividade alinhada aos habitos que quer incluir no seu dia.

Depois disso feito, escolha um dos habitos que você tem hoje para ser a sua deixa para criar o novo. Por exemplo, vamos dizer que tenho o hábito de depois do almoço ficar no celular vendo redes sociais, mas que isso eu avaliei como uma atividade com nota 1. E escrevi que quero ler mais.

Então, eu decido que depois do almoço, em vez de pegar o celular, eu vou pegar um livro e ler 10 páginas. Todo dia.

Faça esse exercício e coloque ele em prática amanhã mesmo, ou hoje se possível.

Continue fazendo ele até o fim do ano e veja o que acontece.

Espero você no meu Instagram, quero saber como foi o exercício e principalmente se você está colocando ele em prática.

Não esquece de compartilhar esse episódio e me seguir na sua plataforma de podcast preferida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *